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maio 14, 2008
Baratos musicais
A despeito da queda vertiginosa de qualidade sonora (já abordada neste post), o mp3 é uma maravilha. Combinado com os e-mules e os torrents da vida então... diliça! Sempre fui um alucinado por música, mas como sou do tempo do vinil era praticamente impossível ouvir (imagine comprar!) certas coisas. Era o trivial simples mesmo, e olhe lá - porque disco sempre foi um troço caro nesse bananal. Quando comecei a baixar músicas, foi como ver o meu mais remoto sonho se transformar em realidade palpável (e audível, no caso) em um clique. O engraçado é que sempre tive relações passionais com músicas e artistas que sequer ouvia, mas já gostava - e por razões mais díspares (as vezes esdrúxulas) possíveis. Algumas apostas foram bem sucedidas, outras nem tanto. Alguns me desiludi, outros me apaixonei mais ainda. Vi que gostava mais do que escreviam sobre Lou Reed do que de sua própria música, mas me encantei com David Bowie. Vi realmente que o som da Motown era fantástico, e meio no embalo descobri a Stax, tão boa quanto - pirei com Isaac Hayes desde o primeiro minuto. Vi que blues era mesmo minha praia: Robert Johnson, Muddy Waters e o meu favorito ever, Howlin' Wolf... tanto cara foda! Me desencatei com punk rock quando vi que o que não era sub-Ramones era sub-Clash ou Dead Kennedys. Ao confirmar que Aretha Franklin era sensacional, caí em Etta James e Koko Taylor. Me despi de preconceitos e vi que o Elvis baladeiro também tinha coisas lindas (me lembro da primeira vez que ouvi, bêbado, Heartbreaker Hotel e chorar igual criança); Frank Sinatra realmente era o cara, mas com Dean Martin e o Rat Pack ele era simplesmente imbatível. Southern Rock! Quanto embalo ouvindo Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd (ouçam Ballad of Curtis Loew e Simple Man, a primeira oração-rock and roll da história). Raridades dos Stones, jam sessions dos Beatles... Animals, Kinks, Troggs, Stooges... o hard dos anos 70 e a santíssima trindade (Led Zep, que já amava, Deep Purple e Black Sabbath). Além do Queen, que baixei tudo de uma vez e passei um domingo ouvindo de ponta a ponta. Aquela Rita Lee pop e baladeira sumiu quando ouvi "Entradas e Bandeiras". Me ligar que o Brasil tem um gênio do porte de um Paulinho da Viola. Yamandu Costa. Paulo Moura. AC/DC. KC and Sunshine Band. UFO. Chic. Metallica. Temptations. Mutantes. Slayer. Secos e Molhados. Norah Jones. Pearl Jam. Chet Baker. Charlie Bird Parker. Nirvana. Ray Charles. Soundgarden. Chris Isaak, minha mais nova obsessão (comprem, emprestem, baixem. O cara é f-o-d-a). Instrumental, choro, violonistas, trilhas sonoras...
O mais interessante dessa história toda é você se descobrir. O processo de crescimento (mesmo) intrínseco neste processo. Confrontei velhos mitos e hoje me sinto um ser humano mais autônomo, mais dono de minhas opiniões. Passei a descartar rótulos. Gosto do disco ou da música se era boa - eis meu único critério até hoje, e não porque fulano indicou, siclano acha legal ou por ser de um estilo tal. Por conta disso, tive discussões bestas ("mas como você gosta de B-52s?" "Como um fã de Iron Maiden gosta de Nina Simone?") e desapontei alguns queridos ("putz, o Rover acha Barão Vermelho legal, fala sério"). So fuckin what? Só devo satisfação à minha satisfação. Se acho legal, digo. Se acho chato, digo também. Arco com minhas opiniões e escolhas porque elas são, vejam só, minhas. Idem para livros, outra paixão (achei Macunaíma um porre e quase fui apedrejado em sala só por falar isso). Baixei algumas músicas do Duran Duran e falei que tinha gostado (pô, Matter of Feeling é fantátsica! New Moon on Monday também é legal, Rio...), tenho que ouvir gozações de tudo quanto é canto até hoje. Ainda mais quando falo que não vejo muita graça num Djavan, por exemplo (e olha que, neste caso, tentei muito); ou que o Caetano tá gagá. Tem gente que não entende, tem gente que leva a sério demais. E que SE leva a sério demais. O que não combina com o ato de ouvir e apreciar música. De consumir e falar sobre música. Pode ser um estilo de vida ou mero entretenimento. Mas é, acima de tudo, um grande barato.
Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa
Posted by Rodrigo Rover at maio 14, 2008 10:59 AM
Comments
E eu aprendi a gostar de música com esse cara aí... Essa paixão toda, esse interesse, essa maneira de falar, de mostrar como é bom, isso tudo me fez mudar muitas coisas, me fez "refinar" o meu ouvir, e agora já era...
Posted by: Sefir at maio 14, 2008 04:33 PM
Impressionante, Rodrigo, o seu bom gosto pra música e pra jornalistas... :-))
Só dá para agradecer e pedir para você colocar aqui algumas canções legais como as que me mandou.
Um beijão!
Jana
Posted by: Janaína at maio 14, 2008 06:09 PM
Muito bem vindo, Rodrigo (desculpe o atraso)!
Abração,
Márcio Guilherme.
Posted by: Márcio Guilherme at maio 14, 2008 08:39 PM
"Por conta disso, tive discussões bestas ("mas como você gosta de B-52s?" "Como um fã de Iron Maiden gosta de Nina Simone?") e desapontei alguns queridos ("putz, o Rover acha Barão Vermelho legal, fala sério")" preciso dizer que esse foi o trecho que mais me identifiquei, dentro de um dos posts que mais me identifiquei ever? maaaas, po. lou reed é legal. os fãs dele que são chatos. acabei de ouvir kaiowas e lembrei daquele vhs que a gente assistia junto, lembra? que tinha uma galera tocando a própria, e no final aquele cara do pantera (cujo nome me foge completamente) levanta o dedo pra câmera, e a gente sempre imitava. substantivo feminino presente apenas na língua portuguesa...
Posted by: thais at maio 15, 2008 04:17 AM
malditos generalistas, que quando agente fala que curte rock já pensam naquelas podreiras (kiss, metalica, korn).
é isso aí! curtir a música é que é importante, desde que TE agrade..
Posted by: Guilherme de Almeida at maio 15, 2008 12:36 PM