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maio 16, 2008
Análise de discurso
Estou no último ano do curso de Letras, então imagine a correria. Resenhas, apresentações, reuniões, esboços, corpus... loucura total! Nosso (o trabalho é em grupo) pressuposto teórico é Análise de Discurso francesa, mais especificamente Dominique Mainguenau (como o corpus é sobre TV Digital, estamos lendo o seu "Análise de Textos de Comunicação" e o seu "Dicionário de Análise de Discurso"). Hoje entrego uma das resenhas, do livro da Eni Pucinelli Orlandi, "Análise de Discurso" (ed Pontes), excelente partida para entender o que é este fascinante campo teórico. Deixo vocês com trechos tirados do livro, usados na resenha. I hope you like it...
Várias são as maneiras de significar. O estudo destes muitos significados deu origem à Análise de Discurso.
Discurso = etimologicamente dá idéia de curso, percurso, correr por. Porém, a Análise de Discurso (AD) não trabalha com a língua como um sistema abstrato, mas com a língua no mundo, suas várias maneiras de significar, considerando a PRODUÇÃO DE SENTIDO como parte da vida, como sujeito (singular) ou parte da sociedade (de um todo).
A AD aborda o confronto do POLÍTICO com o SIMBÓLICO, pois traz a historicidade para linguagem ao mesmo tempo que interroga a transparência da linguagem que as Ciências Sociais se assentam. Aborda ainda a relação língua-ideologia: não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia. O indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia – eis a maneira pela qual a língua faz sentido.
A AD não é transparente: ela procura ATRAVESSAR o texto para encontrar seu sentido (ou um dos sentidos possíveis) do outro lado. Para isso, utiliza-se de conceitos de 03 pilares ideológicos básicos:
1) Linguística: a linguagem não é um ente transparente, pois possui um objeto próprio (língua), que possui uma ordem própria.
2) Marxismo (mais especificamente pelo materialismo histórico): há um real na história de tal forma que o homem FAZ essa história, embora esta também não lhe seja transparente.
3) Psicanálise: a produção de sentido de acordo com a tipologia psíquica humana (Carl Gustav Jung).
A corrente mais utilizada da AD conjuga a língua com a história para produzir sentido. Estes estudos do discurso trabalham com a forma material (e não abstrata, como na linguística textual) que é a forma encarnada na história para produzir sentidos – é a forma Linguístico-Histórica.
Os estudos discursivos não separam forma de conteúdo, e a língua é compreendida não só como estrutura, mas sobretudo como ACONTECIMENTO. Essa reunião de estrutura e acontecimento do significante (língua) ocorre em um sujeito afetado pela história. Aqui é onde entra a contribuição da psicanálise, com o deslocamento da noção de homem para a noção de sujeito. Este, por sua vez, se constitui na relação com o simbólico, na história.
Temos, para a AD:
a) A língua tem sua ordem própria, mas só é RELATIVAMENTE autônoma (distinguindo-se da linguística, ela re-introduz a noção de sujeito e de situação na análise da linguagem);
b) A história tem seu REAL afetado pelo SIMBÓLICO, pois os fatos reclamam sentidos.
c) O sujeito da linguagem é descentrado, pois é afetado pelo real da língua e pelo real da história, não tendo controle sobre o modo como elas o afetam.
ISTO REFUNDA EM DIZER QUE O SUJEITO DISCURSIVO FUNCIONA PELO INCONSCIENTE E PELA IDEOLOGIA.
Então:
DISCURSO É EFEITO DE SENTIDO ENTRE LOCUTORES.
Discuso não é fala, da maneira que vimos com Saussere, não é oposto à língua, e sim relacionada com ela. A língua é condição de possibilidade de discurso. LINGUAGEM É LINGUAGEM PORQUE FAZ SENTIDO, E SÓ FAZ SENTIDO PORQUE SE ESCREVE NA HISTÓRIA.
A AD visa compreender COMO os objetos simbólicos produzem sentido, analisando assim o próprio gesto de interpretação considerados como atos do domínio simbólico, pois eles intervêm no real do sentido.
A INTELIGIBILIDADE refere o sentido da língua: basta saber Português para que o enunciado seja inteligível; no entanto ele não é necessariamente interpretável, pois não se sabe quem ele é e o que ele disse. Já a COMPREENSÃO é muito mais do que isso: é saber COMO UM OBJETO SIMBÓLICO FAZ SENTIDO; como os textos organizam gestos de interpretação que relacionam sujeito e sentido.
***
Gostou? Quer treinar os princípios da Análise de Discurso? Clica aí no Arrastão, na série de posts sobre o caso Celso Daniel, que minha querida amiga Janaína Leite está escrevendo com a competência de sempre e manda ver. Você vai ver como as coisas ficam mais claras (e assustadoras). Vai, clica!
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
Posted by Rodrigo Rover at maio 16, 2008 09:33 PM
Comments
Puxa, Rodrigo, você sabe que adoro essas coisas. Tenho algumas coisas para conversar com você, me avisa quando puder falar. Um beijo.
Posted by: Janaína at maio 17, 2008 12:02 AM
Não sei se entendi. Quer dizer que uma análise de discurso (leiga) que se utilize, por exemplo, de 1) lingüística (Chomsky), 2) filosofia analítica (Wittgenstein, Fodor) e 3) psicologia cognitiva (Pinker) não seria considerada uma análise de discurso (AD)?
(R: Olá, João. A AD é um samba do crioulo doido, várias são as vertentes. A que nós escolhemos para o TCC é essa, apoiada em Saussere, Marx-Hegel (especialmente pelo conceito de ideologia e, vá lá, "historicidade") e Jung por ser a que tivemos maior contato durante o curso - e que, pelo corpus escolhido, se adequava mais facilmente pelo caminho que escolhemos. Várias outras possibilidades existem - a AD não é uma ciência fechada e rígida. Talvez o trecho do post tenha dado a entender que a AD só se apóia nesses 03, sem variantes, num único ramo, então o máximo que posso fazer é um mea culpa, pq não é. Outras abordagens teóricas são possíveis e aceitáveis - a depender do que o analista quer fazer, provar e chegar. Pretendo me aprofundar no tema, que é fascinante mesmo. Obrigado pelo comentário, apareça sempre.)
Posted by: joão marcos at maio 17, 2008 10:25 PM