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janeiro 12, 2006
Convidado da Aposta #3: Cesar Miranda
Convidado: Cesar Miranda
Blog: Pró Tensão
Aposta #3: Luz, câmera, caramanchão.
A arte existe para entreter. Divertir as gentes. Arte que não é divertida não merece existir. Nada que não seja divertido, na verdade, pois a chatice é um pecado grave. A sofisticação não está na arte, e sim no consumidor da arte. O artista verdadeiramente independente faz a arte sem pensar no consumidor e, quando não há público algum para se divertir com aquela obra, com alguma sorte, o tempo cuida de esperar que o público chegue ao ponto em que possa apreciar adequadamente a pobre arte que nasceu estranha ao próprio tempo. Mas voltemos à diversão. A arte apenas arte, obra do artista independente, demanda, ou até talvez engendre, um público suficientemente sofisticado que se divirta com ela. Elomar costuma dizer "eu não faço música pro povo, se o povo quiser que suba até minha arte". Pena, para o povo, que prefere andar pra trás no que diz respeito à sofisticação de suas diversões. Uma coisa é o conteúdo da obra de arte, outra coisa é a forma com que ela chega ao consumidor. Imaginando um público igual e uniformemente sofisticado, o que se poderia chamar de mais ou menos divertido? No que diz respeito à forma da arte, certamente é mais divertida aquela obra que chegar ao público da forma mais confortável possível para o público, pois o conforto é preferível ao esforço (eu poderia aqui escrever três páginas na forma de diálogos para demonstrar maieuticamente essa afirmação da superioridade do conforto sobre o esforço, mas não o farei, estou com preguiça). Sigamos. Sendo o conforto a coisa mais confortável (sic) que existe, não há dúvida de que as artes cênicas são superiores a todas as outras artes na função de contar uma história. Aquele papo furado de que o livro é superior e enriquecedor porque exige mais da imaginação do leitor etc. Ora, ora, isto é, sim, um defeito enorme dessa coisa deficiente que é o livro. O livro às vezes exige leitores gênios para que se entenda a história mais simples do mundo e, às vezes, não tem imaginação que dê jeito; isto sem falar que muitas pessoas (eu?!) são analfabetos funcionais que lêem, mas não entendem aquela gororoba toda que o autor jura que é uma excelente forma de contar história. A defesa do livro (em relação a ir ao cinema, por exemplo) é tão convincente quanto tentar defender a leitura da partitura confrontada com ir a uma sala de concerto ver a Filarmônica de Berlim. Mas voltemos à aventura. Passada para a arte cênica, a história fica mais mole para o espectador justamente porque não exige imaginação alguma dele. De todas as artes cênicas, o cinema é a melhor, superior porque, além de não exigir imaginação, você ainda pode viver a história da tela junto com seu amor e um saco de pipocas. "Viver a história" é o que acontece quando se vai ao cinema, você não pode ir ao cinema para fazer outra coisa (como pensar, por exemplo), senão você perde o filme. Cinema para pensar é como almoço para estudar. O filme lhe puxa pelo braço, leva você junto ao que é contado e só larga seu braço com o "the end". Todo bom livro deveria ser filmado, obrigatoriamente, de preferência pelo Peter Jackson, com atores falando em inglês da Inglaterra. Economizaríamos muito tempo, pois qualquer filme de duas horas em livro corresponde a, no mínimo, duas semanas de leitura. Deixaríamos os livros para os tarados por regências verbais, figuras de linguagem e teorias filosóficas, coisas chatas que nenhuma relação têm com a verdadeira função da arte, que é, confortavelmente, nos tirar deste mundo cruel por algum tempo. Por acaso, essa também é a função do amor.
Posted by marcioguilherme at janeiro 12, 2006 11:07 PM
Comments
Adaptação cinematográfica de Shakespeare, não teatral..
Nem o Hamlet com o texto integral me impressionou.
Posted by: Bushiite at janeiro 12, 2006 11:17 PM
Filmar um soneto seria o fino. Todos os nossos problemas estariam resolvidos.
Posted by: Bernardo Só at janeiro 12, 2006 11:23 PM
Mas, justamente, Shakeaspeare foi feito para ser encenado. Ele era autor de teatro, não de romances. A não ser que você esteja referindo-se aos sonetos.
Posted by: Pallas at janeiro 12, 2006 11:24 PM
Humpf! Discordo.
1- Por que as adaptações cinematográficas são, em 99% das vezes, inferiores ao livro?
2- O filme é sempre a visão do diretor, produtor, equipe, roteirista e etc da obra adaptada. Eu prefiro ler e tirar minhas próprias conclusões.
3- Perde-se muito da profundidade e sabedoria de um livro quando este é adaptado para o cinema. O Senhor dos Anéis até vá lá, porque é um obra um tanto juvenil e com muita ação. Mas preferir assistir a uma adaptação de Shakespeare a ler o bendito...
Posted by: Bushiite at janeiro 12, 2006 11:26 PM