É preciso admitir: segundo todos os métodos de verificação disponíveis, eu sou uma blogueira. O mesmo final “eira” de parteira, torneira e gagueira aplica-se à minha aprazível pessoa. Estou no meio dessa gente indefinível que faz sinal de positivo com o polegar quando posa para uma foto com Juliana Paes. Sou, como se diz, elegível para testar as maravilhas do novo celular com câmera e dente azul da LG. E sou, irremediavelmente, imperdoavelmente, membra de uma, ai!, mídia social. As pessoas podem me apontar na rua e dizer: ela coleciona links responsáveis! Ela pratica ações solidárias! Ela – o horror, o horror – participa de blogagens coletivas!
A posteridade verá meu nome lado a lado com o de gente que acha a Capela Sistina cafona e que não sabe usar crases, não sabe pontuar direito e escreve gentis com acento agudo: gentís. De gente que usa a sério as expressões “objetivo balizador” e “balbúrdia multifacetada”. De gaviões da fiel do marketing viral. De gente que votou em e que apoiou o Obama. De gente que faz posts nas categorias “humor”, “relacionamentos” e “comportamento”. De redatores de posts patrocinados. De Top 5 listers. De gente que vai à livraria e compra “mais um da Clarice”. De gente que gosta do Liniers. E do Neil Gaiman. E do Felipe Hirsch. E, por falar nisso, da Diablo Cody. De gente cuja vida mudou por causa de um certo gibi. De gente que não sabe falar do Oscar sem se referir ironicamente aos gostos e desgostos da Academia. De gente que sorteia sucrilhos. De media watchers. De gen-te que não gosta de dirigentes de futebol. De esquerdistas, ah, subsidiados.
Estou, é claro, morta de vergonha.
Eu, que achava que a mediocridade era só um clubinho com bebida, música e companhia de segunda, descobri que a “blogosfera” é composta de dois tipos de pessoas: uma, a gordinha de Hairspray; outra, a gordinha de Hairspray tatuada e com piercings. Aquela saltita, esta saltita e cospe. Mas são, no fundo, a mesma pessoa, olham pro mundo do mesmo jeito.
Faz todo o sentido as pessoas que têm blogs e não são as gordinhas de Hairspray se juntarem no seu canto, esquecendo o resto. Como as pessoas aqui, todas a postos contra esse mafuá. Parabéns, queridos, vocês têm o meu perfumado apoio.
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Se eu tivesse feito o mundo, Guarulhos não existiria. Porque eu acho que Guarulhos, existindo ou não, é inconcebível, e quem a fez deveria ser castigado de alguma forma.
Se eu tivesse feito o mundo, não existiriam mulheres que engordam, pintam os cabelos de loiro, as unhas de vermelho, abusam da maquiagem e saem por aí falando alto, de roupas justas e tamancos com tiras transparentes e têm um bafo perpétuo de oliúde – e que trocam uma alegria exa-gerada por uma grosseria igualmente exagerada em trinta segundos. Inconcebíveis – mas minha ca-beleireira é assim, e existe.
Ou índios. Eu os acho inconcebíveis. Nunca cheguei perto de um de livre e espontânea von-tade (posso ter esbarrado em algum deles na Praça da Sé ou no metrô, por exemplo; mas, vestidos, é como se fossem chineses bronzeados, ou bolivianos fugitivos: praticamente não existem). Mas eles existem e estão aí, indiando ou, sei lá, fazendo as coisas inconcebíveis que índio faz.
Ou rap. Ai, rap.
Ou o espiritismo. Chico Xavier, por exemplo, botava todos os espíritos no hospital do além, se curando daqui. Boa idéia, mas e aqueles que nunca viram cama, como, sei lá, os paquistaneses? Para eles, hospital é inconcebível, tomar soro é inconcebível, sopa de batata é inconcebível: por que teriam isso no além? Aliás, o Paquistão também é inconcebível.
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Eis aí pois um projeto para 2009: menos blogs, menos Guarulhos, menos cabeleireiras gordas e de humor instável, menos índios, menos rap, menos espiritismo. Estou quase, quase desejando menos Brasil; vamos ver se não mudo de idéia até dia 31.
(texto de Silvia Devereaux, autora do blog Paris, Pinheiros)
Un despliegue de maldá insolente, ou Ai! 2009!
Andete via, vi dico… Mi dispiace por boi
Com um dia de atraso, encerro minha semana entre os apostos, sobre a qual só digo: Obrigado. É sempre um prazer.
Estou (estamos) preparando novidades para todos, e se o Portal não se importa, voltarei aqui para avisar, dar detalhes, coordenadas, etc.
No mais, continuem bem, e para mais divertir-vos, despeço-me, deixando-vos dois links.
Os corpos incorruptos de alguns santos da Igreja Católica. Aqui, também.
E aqui, a prova documental, irrefutável e definitiva de que o Brasil é um país pagão.
Sujeira.
A sujeira dos outros é mais suja que a nossa, nós que tomamos banho todos os dias e nos barbeamos com freqüência, que depilamos as axilas e lavamos atrás das orelhas, nós que sempre cortamos as unhas e usamos polvilho anti-séptico Granado para evitar o chulé, e que damos graças e louvores a todo momento ao sequíssimo e eficientíssimo desodorante. Nós somos limpos. Os outros são sujos.
Somos limpinhos em nosso trabalho, somos limpinhos em nossos carros, e no ônibus ou no metrô, ao contrário dos outros tão suados. Somos higiênicos com nosso esperma dentro dos preservativos usados, e atingiremos cedo ou tarde o objetivo do sexo embalado sem contato manual, o que dará a todos nós uma certificação ISO qualquer, talvez inédita. Somos cheirosos, nossos corpos recendem a Riccis, Chaneis, Fendis, Phebos, Lempickas, Leites de Rosas, Omos, Pupas, Rabanes, Alfazemas e Moschinos. Somos luminosos, somos vencedores, somos bem embalados. Temos todos um ano de garantia e assistência técnica permanente.
Somos limpinhos em nossas doenças, em nossos hospitais, nas farmácias; nos supermercados, petshops e barzinhos imitando botecos sujos. Nossos pulmões são limpos, nossa garganta é limpa. Na nossa boca nada entra sem ser bem lavado. Não temos boca suja.
Graças, que não somos sujos. Não temos pêlos, não temos pele, não temos sangue, não suamos nunca, nossa saliva se esconde. E a limpeza de nosso corpo é a mesma de nossa alma, nossa alma também é limpa; a alma dos outros é imunda, enquanto a nossa é, no máximo, empoeirada. Não nos manchou o sangue derramado violentamente, não nos borramos de loucura marrom, nunca levamos um banho de maldade, e sempre que uma mosca de inveja passeia pelas dobras visíveis de nossos braços ou de nossas mangas de paletó, espantamo-la para dentro de nosso bolso sem fundo.
Somos limpos e não precisamos de banho, não precisamos de fogo, não precisamos de lixívia, dispensamos a água que lava e limpa, porque não somos sujos. Cuide de sua vida, lave sua roupa suja em casa, não meta a colher, tenha seu próprio nariz, não compartilhe seringas, não compartilhe copos, não compartilhe seu lanche, não compartilhe nada, e se você precisar de uma mão procure uma no fim de seu braço.
Somos tão limpos que ofuscamos uns aos outros com nosso fulgor, com a brancura de nossos dentes e unhas, com a brancura de nossa roupa, com a brancura de nossos cérebros, ah, se todo branco fosse assim; caminhamos sobre casacos alheios sem lembrar da lama embaixo deles, o que é muito natural para quem caminha sobre casacos alheios; também não lembramos de que alguém pôs aquele casaco no chão para nosso escabelo. Lavamos nossas mãos sem lembrar de quem encanou a água; e nos enxugamos sem lembrar de quem costurou a toalha. Nossa limpeza não conhece limites, apesar de sermos limitados. Quando acaba em nós o que limpar, quando já não há milímetro quadrado sujo, mal-cheiroso, encardido que seja, estendemos nossa limpeza às casas, aos cachorros, aos carros, às mesas, aos outros. Impomos uma higiene que nos serviu porque não nos abrasou, não nos ardeu, não nos irritou; logo não deve irritar ninguém. Limpe sua língua, limpe suas palavras, dilua seus beijos num mar de outros beijos, mas antes use o spray de própolis.
Somos limpos em nossa falta de pudor, em nossa obscenidade disponível em bancas de jornais, entre púbis depiladas – estamos esperando por você – tudo que você queria saber sobre sexo e não tinha coragem de perguntar – receitas de liquidificador – com licença – quanto é o chiclete? – Fulanos e Sicranas na intimidade – Folhas de São Paulo – Os Pensadores, Santo Agostinho, Dez Reais.
Não somos sujos como os pobres que nos assaltam no sinal, somos mais limpos que os miseráveis que perderam o controle das próprias vidas, nós que nunca roubamos e sempre temos o controle. Navegamos em nossas vidas balançando suavemente, este mar em que vamos não causa enjôo, livres de todo vômito, nunca na lama, jamais na merda, sempre com o nome limpo, carreira brilhante, reputação ilibada, ouvidos que não são penico.
Somos limpos em nossa falta de amor, esse chiclete nojento que nos cola as almas umas às outras. Há quem se una pela carne e pelo sangue, mas essa união carnal e sanguínea sempre nos parecerá pouco mais que sebenta; nós nos unimos pela semelhança, pela medianidade, pela normalidade que nos mantêm perfeitamente inseridos em nós mesmos. Somos nossa própria fôrma, uma fôrma bem untada na qual não ficam resíduos, ainda que untada de maneira limpa e sem exageros, é claro.
Depois de quase dez anos, a primeira vez que eu me senti menor que meu irmão mais velho foi quando ele, de pé no meio da minha sala, eu ainda bêbado de sono e tranqüilo, sem lembrar que uma visita de madrugada ne predict rien de bon, me disse que nosso pai havia morrido. Aquelas palavras me transportaram para um tempo em que eu era o menor membro da família (hoje sou o mais alto), tanto que eu até mesmo cheguei a ver nele o rosto e o cabelo de 15 anos atrás.
Nos dias seguintes, quis saber como foram as cenas irmãs desta que eu vivi – com nosso outro irmão, nossos tios, os amigos da família, todos sabendo do fato por telefone; e em todas as ocasiões as reações foram a mesma. Não, não. Não definitivo.
O dia da morte é o dia do telefone, e se não tive o desgosto de receber também eu uma ligação entre as tantas que fizemos é porque moro perto o suficiente para ter motivado meu irmão a me fazer o que eu vou lembrar para sempre como a pior visita que já recebi._______________
É também doloroso o mundanismo com que se é obrigado a lidar nesta situação. Sempre brinquei dizendo que queria que meu funeral durasse 45 dias, durante os quais se construiria minha pirâmide; devia haver um time de 33 carpideiras, e o mestre de cerimônia seria David Butter. John Santos faria o meu elogio.
Mas se somos inimigos do mundo, ele também é nosso. Tivemos que enterrar meu pai quinze horas após morrer; sem pirâmide, sem carpideiras e sem mestre de cerimônias. Elogio também não houve, embora tivéssemos muitos elogios. Não teve nem terá uma pirâmide, mas soube fugir deste Egito e, no seu navio de um só tripulante-passageiro, atravessou o mar vermelho, aberto ou fechado, e rumou para a Jerusalém eterna. As carpideiras não vieram, mas muitos amigos vieram chorar de graça. Sobre o caixão, NSJC dispensava a necessidade de um MC.
Você levou a melhor, pai.

