junho 04, 2008
Andete via, vi dico... Mi dispiace por boi
Com um dia de atraso, encerro minha semana entre os apostos, sobre a qual só digo: Obrigado. É sempre um prazer.
Estou (estamos) preparando novidades para todos, e se o Portal não se importa, voltarei aqui para avisar, dar detalhes, coordenadas, etc.
No mais, continuem bem, e para mais divertir-vos, despeço-me, deixando-vos dois links.
Os corpos incorruptos de alguns santos da Igreja Católica. Aqui, também.
E aqui, a prova documental, irrefutável e definitiva de que o Brasil é um país pagão.
Publicado por Igor em 01:13 PM | Comments (2)
junho 03, 2008
Sujeira.
A sujeira dos outros é mais suja que a nossa, nós que tomamos banho todos os dias e nos barbeamos com freqüência, que depilamos as axilas e lavamos atrás das orelhas, nós que sempre cortamos as unhas e usamos polvilho anti-séptico Granado para evitar o chulé, e que damos graças e louvores a todo momento ao sequíssimo e eficientíssimo desodorante. Nós somos limpos. Os outros são sujos.
Somos limpinhos em nosso trabalho, somos limpinhos em nossos carros, e no ônibus ou no metrô, ao contrário dos outros tão suados. Somos higiênicos com nosso esperma dentro dos preservativos usados, e atingiremos cedo ou tarde o objetivo do sexo embalado sem contato manual, o que dará a todos nós uma certificação ISO qualquer, talvez inédita. Somos cheirosos, nossos corpos recendem a Riccis, Chaneis, Fendis, Phebos, Lempickas, Leites de Rosas, Omos, Pupas, Rabanes, Alfazemas e Moschinos. Somos luminosos, somos vencedores, somos bem embalados. Temos todos um ano de garantia e assistência técnica permanente.
Somos limpinhos em nossas doenças, em nossos hospitais, nas farmácias; nos supermercados, petshops e barzinhos imitando botecos sujos. Nossos pulmões são limpos, nossa garganta é limpa. Na nossa boca nada entra sem ser bem lavado. Não temos boca suja.
Graças, que não somos sujos. Não temos pêlos, não temos pele, não temos sangue, não suamos nunca, nossa saliva se esconde. E a limpeza de nosso corpo é a mesma de nossa alma, nossa alma também é limpa; a alma dos outros é imunda, enquanto a nossa é, no máximo, empoeirada. Não nos manchou o sangue derramado violentamente, não nos borramos de loucura marrom, nunca levamos um banho de maldade, e sempre que uma mosca de inveja passeia pelas dobras visíveis de nossos braços ou de nossas mangas de paletó, espantamo-la para dentro de nosso bolso sem fundo.
Somos limpos e não precisamos de banho, não precisamos de fogo, não precisamos de lixívia, dispensamos a água que lava e limpa, porque não somos sujos. Cuide de sua vida, lave sua roupa suja em casa, não meta a colher, tenha seu próprio nariz, não compartilhe seringas, não compartilhe copos, não compartilhe seu lanche, não compartilhe nada, e se você precisar de uma mão procure uma no fim de seu braço.
Somos tão limpos que ofuscamos uns aos outros com nosso fulgor, com a brancura de nossos dentes e unhas, com a brancura de nossa roupa, com a brancura de nossos cérebros, ah, se todo branco fosse assim; caminhamos sobre casacos alheios sem lembrar da lama embaixo deles, o que é muito natural para quem caminha sobre casacos alheios; também não lembramos de que alguém pôs aquele casaco no chão para nosso escabelo. Lavamos nossas mãos sem lembrar de quem encanou a água; e nos enxugamos sem lembrar de quem costurou a toalha. Nossa limpeza não conhece limites, apesar de sermos limitados. Quando acaba em nós o que limpar, quando já não há milímetro quadrado sujo, mal-cheiroso, encardido que seja, estendemos nossa limpeza às casas, aos cachorros, aos carros, às mesas, aos outros. Impomos uma higiene que nos serviu porque não nos abrasou, não nos ardeu, não nos irritou; logo não deve irritar ninguém. Limpe sua língua, limpe suas palavras, dilua seus beijos num mar de outros beijos, mas antes use o spray de própolis.
Somos limpos em nossa falta de pudor, em nossa obscenidade disponível em bancas de jornais, entre púbis depiladas - estamos esperando por você - tudo que você queria saber sobre sexo e não tinha coragem de perguntar - receitas de liquidificador – com licença – quanto é o chiclete? – Fulanos e Sicranas na intimidade – Folhas de São Paulo – Os Pensadores, Santo Agostinho, Dez Reais.
Não somos sujos como os pobres que nos assaltam no sinal, somos mais limpos que os miseráveis que perderam o controle das próprias vidas, nós que nunca roubamos e sempre temos o controle. Navegamos em nossas vidas balançando suavemente, este mar em que vamos não causa enjôo, livres de todo vômito, nunca na lama, jamais na merda, sempre com o nome limpo, carreira brilhante, reputação ilibada, ouvidos que não são penico.
Somos limpos em nossa falta de amor, esse chiclete nojento que nos cola as almas umas às outras. Há quem se una pela carne e pelo sangue, mas essa união carnal e sanguínea sempre nos parecerá pouco mais que sebenta; nós nos unimos pela semelhança, pela medianidade, pela normalidade que nos mantêm perfeitamente inseridos em nós mesmos. Somos nossa própria fôrma, uma fôrma bem untada na qual não ficam resíduos, ainda que untada de maneira limpa e sem exageros, é claro.
Publicado por Igor em 12:32 PM | Comments (2)
junho 02, 2008
Terceiro Canto, IV
Vi-te na rua, entre os ares frescos
do dia novo como uma flecha:
a pluma tão valente quanto a seta,
o corpo forte e moço de madeira
que posto entre uma e a outra as conecta.
Segui-te à toa na avenida reta,
Qual se te visse pela vez primeira.
Ias umedecendo o mundo seco.
Eu quis me retirar para uma mecha
do teu cabelo, longe das incertas
monotonias de segunda-feira,
de qualquer segurança irrequieta:
Seguir-te-ia em teu andar sem meta,
Fosses a um deserto ou uma geleira.
Publicado por Igor em 12:32 PM | Comments (0)
maio 30, 2008
Depois de quase dez anos, a primeira vez que eu me senti menor que meu irmão mais velho foi quando ele, de pé no meio da minha sala, eu ainda bêbado de sono e tranqüilo, sem lembrar que uma visita de madrugada ne predict rien de bon, me disse que nosso pai havia morrido. Aquelas palavras me transportaram para um tempo em que eu era o menor membro da família (hoje sou o mais alto), tanto que eu até mesmo cheguei a ver nele o rosto e o cabelo de 15 anos atrás.
Nos dias seguintes, quis saber como foram as cenas irmãs desta que eu vivi - com nosso outro irmão, nossos tios, os amigos da família, todos sabendo do fato por telefone; e em todas as ocasiões as reações foram a mesma. Não, não. Não definitivo.
O dia da morte é o dia do telefone, e se não tive o desgosto de receber também eu uma ligação entre as tantas que fizemos é porque moro perto o suficiente para ter motivado meu irmão a me fazer o que eu vou lembrar para sempre como a pior visita que já recebi.
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É também doloroso o mundanismo com que se é obrigado a lidar nesta situação. Sempre brinquei dizendo que queria que meu funeral durasse 45 dias, durante os quais se construiria minha pirâmide; devia haver um time de 33 carpideiras, e o mestre de cerimônia seria David Butter. John Santos faria o meu elogio.
Mas se somos inimigos do mundo, ele também é nosso. Tivemos que enterrar meu pai quinze horas após morrer; sem pirâmide, sem carpideiras e sem mestre de cerimônias. Elogio também não houve, embora tivéssemos muitos elogios. Não teve nem terá uma pirâmide, mas soube fugir deste Egito e, no seu navio de um só tripulante-passageiro, atravessou o mar vermelho, aberto ou fechado, e rumou para a Jerusalém eterna. As carpideiras não vieram, mas muitos amigos vieram chorar de graça. Sobre o caixão, NSJC dispensava a necessidade de um MC.
Você levou a melhor, pai.
Publicado por Igor em 11:38 AM | Comments (1)
maio 29, 2008
Não é Auberon
Com um dia de atraso: Evelyn Waugh, para mim, é nome de mulher.
Publicado por Igor em 06:18 PM | Comments (1)
Meu esporte preferido, depois da musculação (não tenho tido ânimo para treinar), é detestar metáforas. Não o recurso de linguagem Metáfora, que é legal, etc, mas as metáforas que circulam por aí. Exemplos? A pior de todas: Falar de blog como se fosse uma casa. Você realmente deixa as pessoas entrarem na sua casa na hora que quiserem? Existe mesmo uma distinção clara entre as casas onde você pode escrever o que acha dos móveis e as casas onde não pode? Blog dá infiltração na parede?
Outra metáfora horrorosa é "vencer na vida". É por pontos? Quanto dura a partida? Tem prorrogação, gol-de-ouro? Dá pra vencer por WO? Precisa de Fair-Play?
Se eu estivesse com paciência, poderia provar que estas metáforas não são recursos inocentes de linguagem para expressar situações reais. São DO MAL, crias do cão, para ferrar cavidadocês. Por esta última, fica entendido que há uma turma de vencedores e uma de vencidos; há duas humanidades, ou uma humanidade dividida pela inimizade e pela struggle for life. Isso é, filosoficamente, soooo 1893. Where is the love, the love, the love?
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As minhas bandas preferidas são Motorhead, Machine Head, Radiohead, Talking Heads e os Titãs do IÊ-IÊ-IÊ, mas destes só um disco.
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Sinceramente, meu assunto preferido é de re coquinaria - se tivesse terminado o curso de filosofia, minha conclusão para estética seria sobre comida. Jesus sabia disso, quando instituiu que comêssemos e bebêssemos seu corpo e seu sangue. E quem disser que é metáfora, vá ler o evangelho. Diga antes que é mentira, e saia rebolando em paz por aí.
Publicado por Igor em 12:20 PM | Comments (2)
maio 28, 2008
Como passar vergonha
em duas lições:
1) Acuse esta pessoa de possuir uma "inteligência vulgar";
2) Divida um blog com um sujeito capaz de publicar isso.
Sem morde-e-assopra: Gosto do Pedro Sette Câmara e acho "O Indivíduo" fenomenal. Neste momento, não me ocorre ter lido de outro autor contemporâneo crítica de poesia tão boa quanto a dele - talvez porque eu não leio crítica de poesia sistematicamente, concedo, mas não há como dizer que ele não ama e entende a linguagem poética. Por isso, e por ser um valoroso militante da mesma fé que eu carrego, registro minha admiração e meu respeito à pessoa de Pedro Sette Câmara.
Se é verdade que não há ortodoxia que se sustente nesta bodega, devemos concluir que realmente há lugares onde a ortodoxia não se sustenta; talvez minha saída do portal seja uma prova disso. Há lugares * para ser ortodoxo em paz, e aqui eu estou entre amigos, pessoas a quem amo, e que são inteligentes. Mas quem vem ao portal sempre soube quais são as diferenças entre eu, o Márcio, o David e o Bruno, para falar nos founding fathers, e entre todos os outros. Cada um aqui tem seus leitores individuais, e o fato de muitos serem compartilhados não atrapalha que Fulano seja um leitor de tais e tais blogs, e não necessariamente do portal.
Quando eu digo que talvez a ortodoxia não se sustenta em certos lugares, isso não quer dizer que ela seja falha ou falsa - e só mantive o verbo do David por ser framenguense como ele - mas que ela se sustenta tão bem quanto o pastor pregando no show do Ray Charles. Não obstante, um membro da banda largou tudo e foi sirví o sinhô Jesus. Depois conversamos mais.
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* Voltará.
Publicado por Igor em 02:07 PM | Comments (3)
maio 27, 2008
Em defesa da Idade do Bronze entre os Cristãos
No domingo, último de maio, como você talvez saiba, nós outros católicos temos o costume de coroar Nossa Senhora Rainha do Céu, então vestimos crianças de anjinhos para fins de ornamentação. De fora da Igreja, deve parecer um estranho espetáculo os anjos de all-star.
Num certo momento, passou uma família crente. Um deles olhava para o pátio da Igreja, e eu cri ter lido em seus olhos um certo senso de superioridade, de quem pensa algo como "Ei-los, os idólatras; eis-nos, os escolhidos do Pai". Mas edulcoro; nos ouvidos de minha alma o que eu ouvi foi a versão em idioma católico, esta atrevida mistura de espanhol, italiano e irlandês, na qual a frase acima só poderia ser traduzida como "Ei, babaca, minha turma é melhor que a tua".
Respondi mentalmente algo na linha de "Que que cê tá olhando, fruto do nominalismo? Vem cá que a gente faz mais uma noite de São Bartolomeu".
E nessa hora eu lembrei de você, e de outros, mas principalmente você, João: e te abençoei à distância, por me lembrar que, sim, é possível amá-los, pessoas estranhas que não comem o corpo de NSJC; e é até bom que não cheguemos nunca a nos socar as caras, mas, João, prometo tentar nunca te deixar sossegado, e peço que nunca me deixe quieto também: Porque se nossas diferenças não são bom motivo para nos matarmos, elas estão mortas, não estão gravadas em nós. Assim como os filhotes de lobos brincam lutando, vamos lutar, não para nos machucarmos, mas para nos fortalecermos.
Um soco na cara é mais próximo que um aceno à distância; o soco é um primo bêbado do abraço. A briga tem um significado pelo menos: nós nos importamos com isso, queremos a mesma coisa, mas discordamos; e nos importamos tanto que estamos dispostos a destruir a mão e o rosto; entregamos mesmo a vida em nome disso.
Se um dia todos os cristãos se abraçarem, ótimo. Mas senão, Deus impeça este ecumenismo em que ou eu não acredito que exista um caminho para o céu e outro muito largo para inferno, ou eu não me importo com a possibilidade de meu irmão pegar o caminho ruim. Vamos nos empurrar, que é um modo de puxar;como São Pedro, vamos pescar homens; durante o processo, assim praza a Deus, ficaremos sabendo qual é o barco, qual é o lago. Enquanto isso, porrada; com amor, mas porrada.
Publicado por Igor em 07:58 PM | Comments (5)
Oye, como va?
Fui comprar cigarros, e voltei; semana que vem comprarei cerveja.
Publicado por Igor em 07:47 PM | Comments (0)
maio 22, 2008
Isso é tudo, pessoal
Queridos, queridas: eis que chega ao fim minha semana como convidado deste nobre espaço. Foi bom pra você? Espero que tenha sido tão divertido pra vocês quanto foi pra mim - fiquei amarradão, confesso.
Convido todos a aparecerem lá no SELETA DE PROSA, pra um papo, um café. A casa é menor, mas também hospitaleira.
A TODOS os A Postos, meu agradecimento pela oportunidade e pelo carinho - em especial para a Jana, o Márcio, o Ruy e o David, que me ajudaram bastante. E pra cada um de vocês que passou por aqui, comentando ou não. Valeu!
Um abraço. Nos vemos por aí.
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
Publicado por em 01:48 AM | Comments (7)
maio 21, 2008
Blues na luz vermelha

Thaís Cavalcanti é fotógrafa. E minha irmã querida. E muito talentosa, a despeito do parentesco. Fotografou o show do John Mayall and The Bluesbrakers, recentemente em Sâo Paulo. Eu adoro fotografia e amo blues. Tem muita coisa legal no flickr da garota, clica lá e veja você mesmo. Fotografou ainda gente como Malu Magalhães, Blind Guardian e Forgotten Boys, com seu sempre indefectível "mas que luz é essa, meu Deus?" Torço muito por ela, sou seu maior fã. Ainda que não fosse minha irmã, ainda que não fosse talentosa: a pessoa que me apresenta um Anton Corbjin merece crédito...
PS: Fico devendo a resenha, não fui ao show. Mas confiem na Thaís: o show foi muito bom - pena que a fotógrafa teve que tirar fotos agachada e ajoelhada, o que lhe garantiu dois belos joelhos roxos... ;-)


(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
Publicado por em 08:51 PM | Comments (2)
Caras que você deveria conhecer [2]: Chris Isaak

No meu primeiro post aqui no Outros falei sobre Chris Isaak. E como se deu essa afinidade? Bem, procurando coisas pra baixar, me dei conta que tudo que tinha escutado dele tinha gostado bem, então nada mais justo do que procurar seus discos (thanks Rapidshare!). Não me decepcionei. É muito fácil, pela aparência e até pela temática, colocar o cara numa onda revival, ou simplesmente rockabilly. Apesar de claramente influenciado, é muito mais do que isso. Mesmo com essa cara de capa de caderno Click na maioria das fotos, dê uma chance ao rapaz...
Adoro rock and roll em praticamente todas as suas vertentes, e quando descobri um cara que emulava Elvis e Roy Orbison, era fã de Ramones (ele dá um depoimento no primeiro VHS (sim, VHS) oficial da banda, “Lifestyles of Ramones”, numa banca perto de você), cool até dizer chega, talentoso, com uma baita banda e ainda por cima soando moderno? Oh yeah, baby!
A voz é realmente o maior, mas não único, trunfo do cara. Os Silvertones, banda que o acompanha há tempos (aliás, mesmo nome do primeiro disco dele), é muito boa também. A escolha dos temas, as letras, os arranjos... tudo muito bem dosado. Moderno sem ser pretensioso. Clássico sem aquele ranço de coisa ultrapassada. Pra ouvir lendo, dirigindo, namorando, conversando, fazendo faxina em casa... very nice!
A mais conhecida dele, Wicked Game, passou até cansar, no fim dos anos 80 (é de 89, do Heart Shapped World) – vira e mexe, nessas listas de “clips mais sexys”, ele aparece (ainda por cima o cara casou com a modelo do clip, saca só). Depois viria o San Francisco Days, de 93.
Vem sempre lançando bons discos. Destaque para o Forever Blue, de 95 (onde, dizem, levou um chifraço da muié e ficou sorumbático uns tempos. A faixa título é um primor de tristeza, linda. E, pra não deixar dúvidas, o single (com clip censurado) fantástico Baby Did a Bad Bad Thing. Graduation Day e sua fotografia monocromática também é muito bom. Flying. Blue Hotel, do seu segundo disco, também é jóia. E aparece numa dessas compilações da MTV "Unplugged", volume 1 ou 2, creio.
Outro disco legal é o Baja Sessions, de 96. Mais calmo, numas de surfista, parece que já recuperado do chif...oops, baque. Pretty Girls Don’t Cry, Only The Lonely (me perdoe, Roy, mas o cara reduziu sua versão original a pó). Tem o Speak of the Devil, de 99, com destaque para a faixa título, o Always Got Tonight (2002) e o Christmas, só com canções natalinas, de 2004.

Grande som, grande som!
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
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maio 20, 2008
It's alive

Alertado pela minha irmã, caiu a ficha de que ontem seria aniversário do Joey Ramone, vocalista dos Ramones. Entonces, um turbilhão de emoções passou pela minha cabeça.
Ramones foi, talvez, a banda da minha vida – pelo menos a da minha adolescência eu posso afirmar com convicção que foi. Duro, míope, órfão de pai aos 15, totalmente contra tudo o que era tido como padrão social (I was a teenage, remember), mas ao mesmo tempo sem entender o que se passava ao redor, me identificar com o quarteto nova-iorquino foi fácil. Pela postura, pelo som cru e pelas letras niilistas – as quatro primeiras músicas deles tinham como título “I Dont wanna” alguma coisa, e a quinta foi “Now I Wanna Sniff Some Glue”, haha. Ou sacadas certeiras como essa:
I JUST WANNA HAVE SOMETHING TO DO
Hanging out of Second Avenue
Eating chicken vindaloo
I just want to be with you
I just want to have something to do
Tonight, tonight, tonight,tonight,tonight,tonight
Well allright.
Tonight, tonight, tonight,tonight,tonight,tonight
Wait-Now
Wait-Now
Hanging out all by myself
Cause I don't want to be with anybody else
I just want to be with you
I just want to have something to do
Tonight

E também pelo fato de, qualquer que fosse minha atitude, ela passaria a margem. Como os Ramones: tentaram punk, tentaram hardcore, tentaram baladas (gravaram Ronettes, no último disco que o Phill Spector produziu), regravações (algumas versões foram definitivas, como Do You Wanna Dance, Surfin Bird, Spiderman – sem falar num dos melhores discos de covers da história, o fantástico Acid Eaters, de 93), lançaram um apelo pra tocarem no rádio (a matadora We Want the Airwaves, de 81), tiraram sarro do We Are the World (a pungente (rá!) Something to Believe In, de 86)... e nada. Só tiveram sucesso no Brasil, Chile, Argentina e Japão – além do reconhecimento dos europeus. Perguntem a Sex Pistols, Clash, Pretenders, Motorhead, Paul Di’Anno, entre outros, quem os inspirou a montar uma banda. Influenciaram praticamente TUDO de 76 em diante.
Além de terem pelo menos 02 ao vivo entre os melhores de todos os tempos (It’s Alive, daqueles que dá pra você por numa festa e deixar rolar inteiro, e o alucinante Loco Live, sempre com as músicas iniciando com o mítico "one-two-three-four", tirado de I Saw Her Standing There, dos Beatles – que aliás também gerou o nome da banda: no começo, pra despistar as fãs, Paul McCartney usava o nome “Paul Ramone”, em hotéis). Pra não falar dos clipes: a da já citada Something to Believe In, que reúne o quem é quem do underground americano dos anos 80, o clima on the road de I Wanna Live (que na verdade é um sarro rasgado de Wanted Dead or Alive, do not-so-Bon Jovi), o ar fúnebre de Pet Sematary (com Johnny Ramone tremendo de frio) e um dos melhores clipes de animação ever, I Dont Want to Grow Up – versão também considerada definitiva pelo próprio Tom Waits.
Joey nasceu em 51 e morreu em 2001 (de câncer linfático), sempre em Nova York. Virou nome de rua. E merece ser lembrado, sempre. Porque um cara tão feio como esse não iria tão longe se não fosse talentoso...

RIP, Joey. GABBA GABBA HEY!
Joey Ramone - What A Wonderful World
Ramones - 13 - Bonzo Goes To Bitberg
Ramones - I just wanna have something to do
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
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maio 19, 2008
Malvados

André Dahmer rocks!
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
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maio 18, 2008
Caras que você deveria conhecer: Rory Gallagher

A década de 70 foi a primeira década onde os guitarristas tiveram destaque. Jimi Hendrix. Eric Clapton. Jimmy Page. Brian May. David Gilmour. Ritchie Blackmore. Mas mesmo assim, isso não é razão pra um cara como Rory Gallagher ser praticamente ignorado em tudo que se fala sobre música, especialmente sobre blues rock. Isso poderia ser considerado um pecado grave, exceto por um porém: o próprio Rory, em sua extensa e brilhante carreira, preferiu ser outsider.
Nascido no dia 2 de março de 1948, na cidade de Ballyshannon, tendo crescido na cidade de Cork, ambas na República da Irlanda. Comprou o primeiro violão aos 9 anos. Aos 12 comprou sua primeira guitarra elétrica. Aos 13 formou a primeira banda. Com 15 anos, comprou uma Fender Stratocaster de segunda mão, instrumento que o acompanharia pela carreira toda.

No meio dos anos 60 formou um power trio, Taste, que pode ser visto na versão em DVD do festival da Ilha de Wight - daqueles de banca mesmo. O festival contou ainda com Who e Hendrix. Festival que acabou marcando o fim da banda. Após um período como produtor e músico de estúdio, Rory começou sua belíssima carreira solo com 02 álbuns de uma vez: o debut "Rory Gallagher" e o fantástico "Deuce". Começa com I'm not awake yet, sobre a vida na estrada - repare como Rory consegue o equilíbrio entre as partes de violão e guitarra, tornando a faixa belíssima. Emenda com Used to be, uma que se tornou 'live favourite', toca a exaustão em quase todas as turnês do cara. Tem blues de tudo quanto é tipo, um baita disco. Ouça ainda Crest of a Wave, muito boa. Em seguida, direto, um ao vivo: Live in Europe, com sete faixas da turnê européia (dã) de 72 do guitarrista. Destaque para Could've had religion, uma das músicas favoritas de Bob Dylan, segundo o próprio (um hiato e vamos até 94: Dylan e Rory se encontraram no festival de Montreux de 94, e Bob pediu que Rory tocasse essa música. Rory, imaginando que Dylan subiria ao palco para tocar com ele, parou o show e fez um sinal para onde Dylan estava, para ele subir ao palco. Qual a surpresa de Gallagher quando sobe Bela Fleck, com um banjo! Sem deixar a peteca cair, Rory e Bela atacam de Amazing Grace, Walkin' Blues (de Robert Johnson) e Blue Moon of Kentucky. A jam está no cd póstumo Wheels Within Wheels, de 2003).
No embalo de gravações e turnês, Rory lança Blueprint e Tattoo, outro de seus grandes discos, que serviria de base para o seu disco mais conhecido - e pra mim, um dos 05 melhores live albuns de todos os tempos: Irish Tour, de 74. Com uma banda afiada e voltando a tocar na Irlanda após um tempo afastado, o álbum ganhou ares míticos - virou até filme, disponível em DVD. Desde o arregaço inicial com Cradle Rock, a guitarra maravilhosa de Tatoo'd Lady, o violão ensandecido de As The Crow Flies, a beleza melancólica de Million Miles Away, a potência de Walk on Hot Coats e Whos That Comming... discaço, discaço!
Vamos para 1976 e o álbum Calling Card, produzido pelo deep purple Roger Glover e considerado por muita gente boa seu melhor disco de estúdio. Não sei se chega a tanto, mas é onde a verve inquieta de Rory melhor se manifesta: jazz, blues, rocks, baladas, suíngue... muito bom.
Sempre alternando (bons) álbuns de estúdio com extensas turnês e (bons) discos ao vivo, Rory se mantinha fiel a seus princípios: música pela música, sem babação. Um exemplo de como era o cara: no Calling Card, um dos donos da gravadora pela qual o disco foi lançado sugeriu que se a música Edged in Blue fosse lançada como single, Rory teria um número 1 nas paradas. O que o cara fez? Isso mesmo: não lançou a música nem como lado B!
Outra dica, pra quem quer conhecer: o BBC Sessions dele, duplo, maravilhoso. Músicos competentes, banda afiada, repertório variado, empatia, interação... tudo isso e mais. Rory foi um gênio, que morreu bestamente (complicações após uma cirurgia no fígado, em 1995), mas sua obra está toda aí, pra quem quiser. De tão boa, ganhou o reconhecimento do governo Irlandês: um selo com seu nome.

Se pra você ouvir não é o suficiente, sugiro o DVD duplo Live at Montreux ou o triplo Live at Rockplast.
Ou curtir algumas coisas que separei. Enjoy it!
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
Publicado por em 02:55 PM | Comments (0)
maio 17, 2008
Porque hoje é sábado
Deep Purple - When a Blind Man Cries
Amy Winehouse - Tears Dry On Their Own
Led Zeppelin - I Can't Quit You Baby
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
Publicado por em 02:46 PM | Comments (1)
maio 16, 2008
Análise de discurso
Estou no último ano do curso de Letras, então imagine a correria. Resenhas, apresentações, reuniões, esboços, corpus... loucura total! Nosso (o trabalho é em grupo) pressuposto teórico é Análise de Discurso francesa, mais especificamente Dominique Mainguenau (como o corpus é sobre TV Digital, estamos lendo o seu "Análise de Textos de Comunicação" e o seu "Dicionário de Análise de Discurso"). Hoje entrego uma das resenhas, do livro da Eni Pucinelli Orlandi, "Análise de Discurso" (ed Pontes), excelente partida para entender o que é este fascinante campo teórico. Deixo vocês com trechos tirados do livro, usados na resenha. I hope you like it...
Várias são as maneiras de significar. O estudo destes muitos significados deu origem à Análise de Discurso.
Discurso = etimologicamente dá idéia de curso, percurso, correr por. Porém, a Análise de Discurso (AD) não trabalha com a língua como um sistema abstrato, mas com a língua no mundo, suas várias maneiras de significar, considerando a PRODUÇÃO DE SENTIDO como parte da vida, como sujeito (singular) ou parte da sociedade (de um todo).
A AD aborda o confronto do POLÍTICO com o SIMBÓLICO, pois traz a historicidade para linguagem ao mesmo tempo que interroga a transparência da linguagem que as Ciências Sociais se assentam. Aborda ainda a relação língua-ideologia: não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia. O indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia – eis a maneira pela qual a língua faz sentido.
A AD não é transparente: ela procura ATRAVESSAR o texto para encontrar seu sentido (ou um dos sentidos possíveis) do outro lado. Para isso, utiliza-se de conceitos de 03 pilares ideológicos básicos:
1) Linguística: a linguagem não é um ente transparente, pois possui um objeto próprio (língua), que possui uma ordem própria.
2) Marxismo (mais especificamente pelo materialismo histórico): há um real na história de tal forma que o homem FAZ essa história, embora esta também não lhe seja transparente.
3) Psicanálise: a produção de sentido de acordo com a tipologia psíquica humana (Carl Gustav Jung).
A corrente mais utilizada da AD conjuga a língua com a história para produzir sentido. Estes estudos do discurso trabalham com a forma material (e não abstrata, como na linguística textual) que é a forma encarnada na história para produzir sentidos – é a forma Linguístico-Histórica.
Os estudos discursivos não separam forma de conteúdo, e a língua é compreendida não só como estrutura, mas sobretudo como ACONTECIMENTO. Essa reunião de estrutura e acontecimento do significante (língua) ocorre em um sujeito afetado pela história. Aqui é onde entra a contribuição da psicanálise, com o deslocamento da noção de homem para a noção de sujeito. Este, por sua vez, se constitui na relação com o simbólico, na história.
Temos, para a AD:
a) A língua tem sua ordem própria, mas só é RELATIVAMENTE autônoma (distinguindo-se da linguística, ela re-introduz a noção de sujeito e de situação na análise da linguagem);
b) A história tem seu REAL afetado pelo SIMBÓLICO, pois os fatos reclamam sentidos.
c) O sujeito da linguagem é descentrado, pois é afetado pelo real da língua e pelo real da história, não tendo controle sobre o modo como elas o afetam.
ISTO REFUNDA EM DIZER QUE O SUJEITO DISCURSIVO FUNCIONA PELO INCONSCIENTE E PELA IDEOLOGIA.
Então:
DISCURSO É EFEITO DE SENTIDO ENTRE LOCUTORES.
Discuso não é fala, da maneira que vimos com Saussere, não é oposto à língua, e sim relacionada com ela. A língua é condição de possibilidade de discurso. LINGUAGEM É LINGUAGEM PORQUE FAZ SENTIDO, E SÓ FAZ SENTIDO PORQUE SE ESCREVE NA HISTÓRIA.
A AD visa compreender COMO os objetos simbólicos produzem sentido, analisando assim o próprio gesto de interpretação considerados como atos do domínio simbólico, pois eles intervêm no real do sentido.
A INTELIGIBILIDADE refere o sentido da língua: basta saber Português para que o enunciado seja inteligível; no entanto ele não é necessariamente interpretável, pois não se sabe quem ele é e o que ele disse. Já a COMPREENSÃO é muito mais do que isso: é saber COMO UM OBJETO SIMBÓLICO FAZ SENTIDO; como os textos organizam gestos de interpretação que relacionam sujeito e sentido.
***
Gostou? Quer treinar os princípios da Análise de Discurso? Clica aí no Arrastão, na série de posts sobre o caso Celso Daniel, que minha querida amiga Janaína Leite está escrevendo com a competência de sempre e manda ver. Você vai ver como as coisas ficam mais claras (e assustadoras). Vai, clica!
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
Publicado por em 09:33 PM | Comments (2)
Midlife Crisis - ou "decidi postar enquanto escrevia"
Só pelo verso "You're perfect, yes, it's true. But witihout me you are only you"
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
Publicado por em 04:23 AM | Comments (4)
maio 15, 2008
Escuta aqui VOCÊ, rapá!
Jornalista brasileiro de música é a coisa mais fácil de esculhambar, em sua imensa maioria: seja por fazer questão de agradar a panela, seja por ser baba-ovo de qualquer coisa que venha de fora. Ou seja: é muito fácil. Mas as vezes também é irresistível, não dá pra passar batido. Álvaro Pereira Junior, colunista do Folhateen e Chefe de Redação do Fantástico, é do segundo time. Com uma retificação: onde está "qualquer coisa", leia-se "qualquer coisa obscura e que não faça sucesso". Descendente da linha Pepe Escobar e André Forastieri do jornalismo musical, sua coluna no Folhateen tem o "cd player": coisas que ele recomenda em maior (play) ou menor (pause) escala, e os quais deveríamos, ignóbeis que somos, passar batido (eject). Pois bem. Essa semana, Álvaro nos brinda com essa relação:
PLAY - "Adrenalin", Bauhaus
Faz tempo que estou para elogiar a ressurreição do Bauhaus, mais góticos que nunca.
EJECT - "Alice", Moby
É chato dizer, porque gosto do cara, mas, criativamente, Moby está esgotado.
EJECT - Whitesnake e Megadeth no Brasil
Continuamos como cemitério do rock mundial, recebendo tranqueiras que ninguém mais quer.
Já digo de cara: exceção feita ao Megadeth, gosto de todos os outros artistas. Mas peraí: a volta do Bauhaus, com todo respeito, gerou repercussão pouca ou nenhuma! Já a do Whitesnake, uma turnê mundial, com disco novo e o escambau (que rima horrível), fora a cotação para abrir a tão esperada (oremos!) turnê de retorno do Led Zeppelin... enfim, só o complexo de vira-latas (dá-lhe Nelsão Rodrigues!) explica essa admiração tosca: "ninguém se ligou que o Bauhaus voltou? Beleza! Vou elogiar, porque sou antenado e cool". Pode ter certeza que a Melody Maker ou a NME amaram a volta do Bauhaus. Se o Bauhaus viesse ao Brasil, levaria eject? O Brasil continuaria um "cemitério do rock mundial"? Repito, gosto de Bauhaus, mas nessa o oráculo do Folhateen escorregou no próprio argumento. Só mesmo a questão "gosto pessoal" explica (embora não justifique) esse tipo de argumento pueril - que aliás, pegaria até bem num fanzine, numa Rock Brigade da vida, mas na Folha de São Paulo? Óbvio, é uma coluna, o cara pode escrever o que lhe der na telha, pode ter a opinião que quiser, é certo - mas também pode ser cobrado por isso, oras. Quem escreve o que quer...
Coerência, onde estás que não responde?
(Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa)
Publicado por em 08:41 PM | Comments (9)
A little less conversation
The Black Crowes - Cursed Diamond
The Temptations - Just My Imagination
Creedence Clearwater Revival - (Wish I Could) Hideaway
Elvis Presley - Suspicious Minds
David Bowie and Queen - Under Pressure
Sound Garden & Stone Temple Pilots - call me a dog
Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa
Publicado por em 10:01 AM | Comments (4)
maio 14, 2008
Seleta de Prosa? Uadafuckisdét?
"Seleta de Prosa" é o nome deste livro de Manuel Bandeira (organizado por Julio Castañon Guimarães), com alguns de seus grandes ensaios (Itinerário de Pasárgada, Estudos literários, Crítica de arte e ainda o verbete "A versificação em língua portuguesa", da Enciclopédia Delta Larousse), além de cartas a Lúcio Cardoso, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector.
Já "A mente move a matéria" (pra quem não conhece o blog, é a "descrição", logo abaixo do título, na parte superior) é o correspondente em português do latim pra Mens Agitat Molem, que Fernando Pessoa utilizou como idéia para o título do "Mensagem" (MENS AGitat molEM): só o trabalho intelectual tiraria Portugal do marasmo cultural em que estava; essa é a MENSAGEM que Pessoa queria passar ao povo português. (Informação tirada do livro "As Mensagens da Mensagem de Fernando Pessoa", do Nuno Hipólito, português que mantém um belo site (O Major Reformado) sobre Fernando Pessoa. Tem esse livro pra baixar, além de outros grandes ensaios sobre FP.)
Com a inspiração e, espero, as bençãos de 02 mestres, vamos em frente.
Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa
Publicado por em 05:55 PM | Comments (4)
Baratos musicais
A despeito da queda vertiginosa de qualidade sonora (já abordada neste post), o mp3 é uma maravilha. Combinado com os e-mules e os torrents da vida então... diliça! Sempre fui um alucinado por música, mas como sou do tempo do vinil era praticamente impossível ouvir (imagine comprar!) certas coisas. Era o trivial simples mesmo, e olhe lá - porque disco sempre foi um troço caro nesse bananal. Quando comecei a baixar músicas, foi como ver o meu mais remoto sonho se transformar em realidade palpável (e audível, no caso) em um clique. O engraçado é que sempre tive relações passionais com músicas e artistas que sequer ouvia, mas já gostava - e por razões mais díspares (as vezes esdrúxulas) possíveis. Algumas apostas foram bem sucedidas, outras nem tanto. Alguns me desiludi, outros me apaixonei mais ainda. Vi que gostava mais do que escreviam sobre Lou Reed do que de sua própria música, mas me encantei com David Bowie. Vi realmente que o som da Motown era fantástico, e meio no embalo descobri a Stax, tão boa quanto - pirei com Isaac Hayes desde o primeiro minuto. Vi que blues era mesmo minha praia: Robert Johnson, Muddy Waters e o meu favorito ever, Howlin' Wolf... tanto cara foda! Me desencatei com punk rock quando vi que o que não era sub-Ramones era sub-Clash ou Dead Kennedys. Ao confirmar que Aretha Franklin era sensacional, caí em Etta James e Koko Taylor. Me despi de preconceitos e vi que o Elvis baladeiro também tinha coisas lindas (me lembro da primeira vez que ouvi, bêbado, Heartbreaker Hotel e chorar igual criança); Frank Sinatra realmente era o cara, mas com Dean Martin e o Rat Pack ele era simplesmente imbatível. Southern Rock! Quanto embalo ouvindo Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd (ouçam Ballad of Curtis Loew e Simple Man, a primeira oração-rock and roll da história). Raridades dos Stones, jam sessions dos Beatles... Animals, Kinks, Troggs, Stooges... o hard dos anos 70 e a santíssima trindade (Led Zep, que já amava, Deep Purple e Black Sabbath). Além do Queen, que baixei tudo de uma vez e passei um domingo ouvindo de ponta a ponta. Aquela Rita Lee pop e baladeira sumiu quando ouvi "Entradas e Bandeiras". Me ligar que o Brasil tem um gênio do porte de um Paulinho da Viola. Yamandu Costa. Paulo Moura. AC/DC. KC and Sunshine Band. UFO. Chic. Metallica. Temptations. Mutantes. Slayer. Secos e Molhados. Norah Jones. Pearl Jam. Chet Baker. Charlie Bird Parker. Nirvana. Ray Charles. Soundgarden. Chris Isaak, minha mais nova obsessão (comprem, emprestem, baixem. O cara é f-o-d-a). Instrumental, choro, violonistas, trilhas sonoras...
O mais interessante dessa história toda é você se descobrir. O processo de crescimento (mesmo) intrínseco neste processo. Confrontei velhos mitos e hoje me sinto um ser humano mais autônomo, mais dono de minhas opiniões. Passei a descartar rótulos. Gosto do disco ou da música se era boa - eis meu único critério até hoje, e não porque fulano indicou, siclano acha legal ou por ser de um estilo tal. Por conta disso, tive discussões bestas ("mas como você gosta de B-52s?" "Como um fã de Iron Maiden gosta de Nina Simone?") e desapontei alguns queridos ("putz, o Rover acha Barão Vermelho legal, fala sério"). So fuckin what? Só devo satisfação à minha satisfação. Se acho legal, digo. Se acho chato, digo também. Arco com minhas opiniões e escolhas porque elas são, vejam só, minhas. Idem para livros, outra paixão (achei Macunaíma um porre e quase fui apedrejado em sala só por falar isso). Baixei algumas músicas do Duran Duran e falei que tinha gostado (pô, Matter of Feeling é fantátsica! New Moon on Monday também é legal, Rio...), tenho que ouvir gozações de tudo quanto é canto até hoje. Ainda mais quando falo que não vejo muita graça num Djavan, por exemplo (e olha que, neste caso, tentei muito); ou que o Caetano tá gagá. Tem gente que não entende, tem gente que leva a sério demais. E que SE leva a sério demais. O que não combina com o ato de ouvir e apreciar música. De consumir e falar sobre música. Pode ser um estilo de vida ou mero entretenimento. Mas é, acima de tudo, um grande barato.
Rodrigo Rover, convidado do A Postos e dono do Seleta de Prosa
Publicado por em 10:59 AM | Comments (5)
janeiro 24, 2008
Mudanças
Eu, Até os 15 anos
Até os 15 anos de idade, eu era uma criança extremamente complicada.
Gordo, feio e gago. Óculos de fundo de garrafa no nariz. Cara coberta de espinhas. Muito mais rico do que todos os meus colegas.
Ninguém poderia chegar perto de mim a não ser para sacanear, eu pensava. Por isso, me tornei primeiro defensivo e, depois, agressivo. Minha boca era uma arma. Inteligente e articulado, eu conseguia enfiar o dedo em todas as feridas. Antes que me sacaneassem (o que mais poderiam querer comigo, afinal?), eu já sacaneava todo mundo.
Meninas, nem pensar. Pra que se preocupar com impossibilidades? Mesmo que alguma infeliz desenvolvesse alguma inexplicável paixão por mim, e teria que ser uma infeliz, para se sentir atraída por uma pessoa tão insuportável, eu simplesmente jamais acreditaria que era verdade.
Nunca vou deixar de amar os poucos amigos que tenho daquela época. Lembro bem de suas tentativas de aproximação. Lembro bem de afastá-los a pedradas - afinal, o que podiam querer com alguém como eu?! Lembro bem de suas repetidas tentativas até vencerem minhas barreiras.
Eles me salvaram de mim mesmo e me ajudaram a me tornar mais humano.
Por fim, nem todos esses defeitos faziam de mim uma pessoa insegura ou infeliz.
Contra todas as evidências, eu me achava o máximo, mais inteligente e mais capaz do que qualquer um. Extremamente seguro dos meus pontos fracos, eu procurava me concentrar nos fortes.
Trancado em casa, lendo, escrevendo, inventando histórias e personagens, eu era feliz.
Já naquela época, eu tinha noção de uma coisa muito importante.
Minha incansável mãe tentava fazer com que eu saísse de casa, dançasse, fosse a festas, ou seja, me comportasse como um menino normal.
E, muitas vezes, eu friamente me perguntava: será que eu não devia estar fazendo isso? Será que eu não devia estar na festa com os amiguinhos ao invés de trancado em casa lendo Sherlock Holmes? Será que mais tarde eu não vou me arrepender de ter desperdiçado minha juventude?
E, apesar de todo o longo caminho que eu ainda tinha a percorrer, desde os quinze anos eu sabia a resposta desse dilema.
Fazer hoje o que eu quero fazer hoje é mais importante do que fazer hoje o que eu posso vir a querer ter feito amanhã.
Eu amanhã desejar ter dançado mais aos quinze anos é uma abstração, uma possibilidade. Desejar hoje ler Holmes hoje era um fato.
Na pior das hipóteses, se o meu eu-velho for infeliz por não ter dançado mais aos quinze, eu pelo menos vou ser feliz hoje fazendo o que eu quero.
E dá-lhe Watson.
Eu, A Partir dos 15 Anos
Aos 15 anos, meus pais me colocaram em uma escola internacional.
Todas as aulas eram inglês. Todas as conversinhas com os colegas eram em inglês. Todos os nomes de partes do corpo humano eram em inglês. Todos os laboratórios de física eram em inglês. E meu inglês nem era isso tudo.
As regras, a cultura, os hábitos, tudo era radicalmente diferente. Nunca me senti tão mentalmente estafado como naquelas primeiras semanas. Aprendia coisas novas no ritmo que só um cérebro de quinze anos é capaz.
Sem querer, sem planejar, bom ser humano que sou, no esforço de me adaptar ao meu novo ambiente, eu mudei. Foi minha primeira, e mais importante, reinvenção.
Sobrevivi ao primeiro ano já camaleado. Tão ocupado em entender o novo mundo à minha volta, nem mesmo percebi o quanto tinha mudado.
Para melhor absorver o meu ambiente, fiquei mais calado, mais calmo, mais tolerante. Para fazer amigos, me tornei mais sociável, menos agressivo, menos boca suja.
As atividades extra-curriculares da escola serviam de válvula de escape para minha energia interminável. Fiz de tudo. Editei jornal, presidi grêmio, participei de clubes, disputei eleições. Além de canalizar minha agressividade latente, essas atividades também fizeram com que eu me socializasse com colegas de interesses parecidos e até mesmo desenvolvesse liderança.
O eremita ranzinza tinha finalmente aprendido a interagir com os humanos.
A gente vai mudando ao longo da vida e nunca realmente percebe.
O melhor jeito de isolar, quantificar e acompanhar nosso processo de transição é através das pessoas que não conheceram nosso eu antigo, só o novo. Elas são o espelho que tornam nossa metamorfose visível.
Meus novos amigos, colegas de atividades, companheiros de chapa no grêmio, redatores do jornal, falavam de mim e eu não me reconhecia nas descrições. Esse não sou eu, eu pensava.
Mas eles viam a pessoa na qual eu já havia me transformado, enquanto eu ainda pensava na pessoa que eu era.
Um dia, caiu a ficha.
Pelo ano anterior, finalmente me dei conta, eu tinha de fato sido uma pessoa radicalmente diferente.
Mais importante, aquela era pessoa que eu realmente era. Ou, melhor, dane-se quem eu realmente era: aquela era a pessoa que eu queria ser.
Plágio de Mim Mesmo
Preciso reescrever o primeiro capítulo de um romance dezenas de vezes até encontrar o tom exato. Quando encontro, o resto do romance nada mais é do que plagiar aquele primeiro capítulo, manter aquele tom, sustentar aquele clima.
Eu, romancista da minha vida, fiz o mesmo.
Olhei pra trás e pensei: essa pessoa que eu fui nesse último ano é quem eu realmente sou, é quem eu quero ser. Como manter esse tom?
De certo modo, me tornei o ídolo de mim mesmo.
Algumas pessoas se perguntam: o que Jesus faria nessa situação? Pois eu me perguntava: o que o Alex desse ano passado faria?
E buscava estar à altura daquele padrão de comportamento que eu mesmo, sem perceber, havia estabelecido.
Mesmo assim, muitas vezes, eu ainda resvalava em meus velhos e agressivos hábitos. E os novos amigos estranhavam, não me reconheciam: o que foi isso, Alex? Você não é assim!
E eu ria por dentro: sou sim, mas não pra vocês.
Na prática, eram o termômetro da minha metamorfose. Afinal, conheciam apenas o novo Alex. Ninguém melhor do que eles para detectar (e estranhar) as aparições esparsas do velho.
Nenhum dos Alex era perfeito, claro. O Alex da escola internacional era sociável e palatável, um bom político que ganhou todas as eleições que disputou mas, também por isso, careta, vaselina e tão certinho quanto jamais conseguirei ser.
E, assim, fui crescendo e, dentro de minhas limitações, virei gente.
Mas nunca cansei de me reinventar.
Liberal Libertário Libertino
Muitos anos depois, eu era um responsável empresário da internet, casado com uma bela mulher. Tinha carro importado, era sócio de um clube de golfe e jogava tênis duas vezes por semana. Nunca fui tão adulto.
Ao mesmo tempo, na calada da noite, eu me envolvia cada vez mais com uma turma altamente subversiva. Sade, Sacher-Masoch e Krafft-Ebbing. La Mettrie, Darwin e Freud. Freire, Thoreau e Miller. Whitman, Kerouac e Emerson. Minha mãe deveria ter me avisado para não andar com maus elementos.
Finalmente, chutei o balde.
Não agüentava mais uma empresa que não dava dinheiro e sugava toda minha força criativa. Decidi que não queria mais emprego, não queria mais segurança.
Minha esposa e eu morávamos em um quarto na casa da minha mãe. Eu dava aulas de inglês em um cursinho de bairro e prestava consultoria de internet para grandes empresas. Ela fazia mestrado de manhã e vendia roupa de grife a noite. Com o tempo, fomos morar em nosso próprio apartamentinho. Alugado, claro.
Vivíamos um casamento aberto, onde ambos éramos livres para explorar novas fronteiras, buscar crescimento e amadurecimento em outros parceiros e trazer essas experiências para enriquecer nosso próprio relacionamento.
Mais uma vez, nascia um novo Alex. Absolutamente liberal, libertário e libertino.
Por um lado, mais contemplativo, plácido e tolerante do que nunca. Por outro, nunca tão ativo, ousado e sensual. Aproveitando oportunidades, expandindo limites, experimentando a vida de modo geral. Menos estressado, mas também menos sociável, e menos preocupado com tudo, especialmente com a opinião dos outros.
Desamarrei meu ego do meu trabalho, de um modo que a grande maioria dos homens não consegue nem conceber.
Dar aulas de inglês não era minha carreira. Eu não era professor de inglês - como já havia sido, por exemplo, empresário. Pela primeira vez na vida, eu era só Alex e isso tinha a força libertadora de uma revolução.
Não era nenhum emprego desafiador a altura de minhas pretensas capacidades brilhantes, e isso também era uma libertação. Ninguém esperava nada de mim. Minha chefa não queria um intelectual inovador ou um manager pró-ativo. Ela queria apenas que eu ensinasse o present perfect como estava no livro e não criasse caso.
Percebi que eu não devia nada a ninguém. Bastava eu trabalhar o suficiente para pagar minhas contas e eu estaria livre o resto do tempo, pra flanar, vagar, perambular, observar, experimentar, transar.
De vez em quando, alguém vinha me dizer que era uma pena alguém brilhante como eu desperdiçar meus inúmeros talentos dando só aulinhas de inglês. E eu respondia: vai ver o meu brilhantismo está em perceber que existem coisas mais importantes na vida do que trabalho, carreira, segurança.
O Alex da Joana
No meio de tudo isso, apareceu Joana.
Primeiro, fomos amigos, depois amantes, então amigos-e-amantes e também amantes-e-amigos. E continuamos assim até hoje.
Ela foi a primeira pessoa que conheci depois de completada essa última metamorfose. Pra ela, esse novo Alex não era um novo Alex, era O Alex.
Pra os amigos mais antigos, para a família, eu estava apenas surtando, dando um tempo, já já iria voltar ao normal, que eu não poderia me desperdiçar assim, não tinha nem emprego, nem plano de saúde, nada, isso não é vida!
Mas, para Joana, o Alex era aquilo, sem tirar nem pôr. Ela foi, e continua sendo, o parâmetro do sucesso contínuo e continuado dessa minha nova jornada em direção a sei lá onde.
Quando ela fala que sou a pessoa mais cuca-fresca que conhece, eu fico feliz.
Essa é a pessoa que eu sou. Essa é a pessoa que eu sou porque essa é pessoa que eu criei. Essa é a pessoa que eu criei porque essa é a pessoa que eu queria ser. Essa é a pessoa que eu queria ser porque sei bem que naturalmente eu não sou assim.
Mas, por um ato consciente de vontade, essa pessoa existe e sou eu.
Meus pais, que conheceram o adolescente complexado e agressivo, nunca irão me enxergar assim, por mais que eu mude.
A Joana não. Para ela, eu sou essa pessoa. E cada vez que eu vejo essa pessoa refletida em seus olhos, sei que alcancei uma grande vitória, daquelas decisivas, verdadeiro Dia D interior.
E quando ela, uma mulher neurótica e complicada, diz que está aprendendo comigo a cagar mais pra vida, a ser mais livre, mais tranqüila e mais feliz, o que eu escuto é não só que passei por mais uma etapa na minha jornada como que ainda estou trazendo-a junto.
E quando ela observa que estou diferente, estressado, com uma agressividade que não reconhece, que nunca me ouviu falar daquele jeito, aí eu dou um passo atrás e soam todos os alertas: é o velho Alex, Godzilla tentando emergir, placas tectônicas se movendo no subsolo, terremotos e maremotos na superfície.
Eu penso: o que o Alex da Joana faria numa hora dessas? Como ele reagiria? Mais importante, como voltar a ser o Alex da Joana?
Mantendo a Estrada
E, por enquanto, o meu objetivo balizador é continuar reconhecível para Joana. Enquanto ela vir em mim o Alex que conheceu e amou é porque não me afastei demais da estrada que escolhi.
Em breve, a não ser que eu morra primeiro, espero transcender esse Alex e me tornar uma nova pessoa. Mas esse passo a frente Joana acompanharia ao vivo, no nosso dia-a-dia.
Já um passo atrás, porém, em direção a um Alex que não conheceu, ela perceberia na hora.
Texto do Alex Castro, dono do blog Liberal, Libertário, Libertino.
Publicado por apostos em 12:00 AM | Comments (3)
maio 31, 2006
Convidado da Aposta #9: Cisco
Convidado: Cisco Costa
Blog: Filisteu
Aposta #9: Futebol
A última vez que prestei atenção na Copa do Mundo foi em 1994. Assisti o Baggio perder aquele pênalti trancado no meu quarto, nervoso, com uma TV que mostrava mais chiado que gramado. Eu já tinha sido bastante traumatizado pelo Caniggia em 90, não queria outra facada.
Um chutão para fora e deu, estava acabada a história do futebol brasileiro. Pelo menos para mim.
Trauma, Itália, 1990
De 1994 para frente, não tinha mais como o futebol me agradar. Aquela vitória era o final ideal, não havia nada que pudesse se comparar. Fui perdendo o interesse. Não jogava mais nas peladas, não me emocionava tanto.
Antes da Copa começar, eu ia apostar na França em 1998. Desisti, não entrei no bolão. Desisti de vez do futebol. Desisti do esporte como entretenimento, na verdade.
De uns anos para cá, comecei a me interessar por basquete. Bem na época certa, na verdade. Após alguns anos de mal-estar pós Michael Jordan, a NBA está renascendo. LeBron James, Carmelo Anthony, Chris Bosh, Dwight Howard e Chris Paul são cinco dos melhores jogadores do mundo -- e nenhum deles é mais velho do que eu. Kobe Bryant marcou 81 pontos em um jogo este ano -- a segunda maior pontuação individual da história. O Los Angeles Clippers -- a equipe mais perdedora de toda a história dos esportes americanos -- teve um sucesso miraculoso. O Phoenix Suns está revolucionando o esporte com
uma correria insana. As disputas estão acirradas. Estamos no meio das finais de Conferência e não há um favorito claro. Tenho que me controlar para não escrever quinze posts por dia sobre o assunto no Replay. Não há momento melhor para ser fã da NBA.
Enquanto isto, no Brasil, ninguém consegue parar de falar de futebol. Para todo lado que se olha, futebol. No restaurante, balões verdes e amarelos. No McDonald's, hambúrgueres especiais. Nos blogs, textos de convidados sobre o tópico. Eu não agüento mais. Minha obsessão pessoal é invisível. É como se eu fosse fã de Curling ou Chess Boxing ou coisa que o valha. O futebol me persegue.
Por isso, estou torcendo para um repeteco de 90. Brasil eliminado nas
oitavas pelos tchecos ou pelos americanos. Gol contra de Ronaldo, qualquer Ronaldo. Algo horrível. Outro trauma nacional. Angústia e autocomiseração por
todo o país. Mito do eterno retorno. Se tudo der certo, onda antinacionalista leva à queda do presidente.
Não vai acontecer, claro. Mas estou pendurando uma bandeira vermelho, azul e branca, just in case.
Publicado por apostos em 05:21 AM | Comments (1)
abril 28, 2006
Convidado da Aposta #8: Lord ASS
Convidado: Alexandre Soares Silva
Blog: Alexandre Soares Silva
Aposta #8: Aniversário
Os membros do Apostos me pediram pra falar sobre Aniversário. Mas
justo hoje, aniversário da execução do Duce? Estou vendo o retrato
dele em cima da minha tevê e as lágrimas caem sobre o teclado.
Na verdade não preciso nem digitar -é só deixar a lágrima cair na
tecla certa. Vai demorar um pouco pra escrever o post assim, mas
também quem tem pressa? Eu não, está divertido.
Mas ei, não estou brincando ao dizer que tenho um retrato de Mussolini
em cima da tevê. Antes estivesse. Às vezes estou me divertindo vendo,
digamos, Miss Simpatia, ou outro desses filmes que eu não devia
confessar que gosto, quando no meio de uma risada meus olhos esbarram
no olhar de reprovação do Duce. Há algo naquele olhar (um pouquinho
ressentido até) que deixa claro que ele não aprova Sandra Bullock.
Nesses momentos levanto, desligo a tevê e começo a dar voltas no
quarto pensando em algo para fazer em prol da juventude fascista
italiana. Geralmente não me ocorre mais nada além de cantar Funiculi
Funicula.
Também foi o dia em que o Capitão Bligh foi expulso do seu próprio
navio e colocado num barquinho pelo Marlon Brando. Um mau dia para
tiranos, senhores. Porém aniversário de Ann Margret e Jacques Dutronc
(tomem um vídeo de Jacques Dutronc pra vocês no final do post). (Ah,
de nada.)
De qualquer maneira é um prazer ser recebido aqui no Apostos –feliz
aniversário para o portal, que seja o primeiro de muitos. Me
deixa tentar fazer uma vênia sem deixar cair a cartola e a peruca.
Assim, ops. (Meu olho de vidro rolou pra perto do Ruy Goiaba. Não
chuta! Ah, estão jogando futebol entre eles.) Meu aniversário é 6 de
novembro, by the way. Quero isto, isto e isto.
Mas ninguém presta atenção no que eu digo. Devolve o meu olho de
vidro! Pelo menos um deles, caramba.
***********
(pondo o olho de volta) Vou fazer greve de fome para protestar contra
a guerra. Bom, não uma greve de fome, só uma dieta. Uma Dieta de South
Beach contra a guerra. Ou não contra a guerra, agora fiquei confuso,
acho que era a favor de mais guerra. Sim, isso.
Se eu fosse o Bush, me divertiria muito exigindo coisas absurdas em
troca de parar a guerra. Por exemplo: prometeria não bombardear o Irã
se Madonna se separasse de Guy Ritchie. Sejamos realistas, ele nunca
mais vai fazer um filme bom enquanto estiver com ela. Ela teria que
mudar de nome também, ia passar a se chamar Neide e ia ter que falar
com sotaque de caipira de Maringá. Quando perguntassem a religião
dela, ela ia ter que dizer, "nenhuma, sou muito burra". Ela ia
abandonar a ioga e o pilates e, como exercício, só ia andar de
burrico. Essas são as minhas condições.
Não, que besteira, tem mais. Todos os vídeos dela iam ter que começar
da mesma maneira: vem uma senhora de braços flácidos e começa a bater
palma na frente de uma casinha pobre em Maringá, gritando: "Neide! Ô
Neide!". Aparece uma criança barriguda de chupeta, olhando assustada.
"Chama a mãe, fio!". Daí aparece a Madonna, cantando. (As vizinhas
aplaudindo: "Êêê Neeeide!...".)
***********
Ok, agora acabei. Adeus, Apostos. Adeus, Duce. Feliz Aniversário,
Jacques Dutronc.
(Aqui, Jacques Dutronc correndo da vaquinha.)
Publicado por apostos em 12:42 AM | Comments (10)
abril 01, 2006
Convidada da Aposta #7: Olivia
Convidada: Olivia
Blog: Forsit
Aposta #7: Amor: promessas, surpresas, decepções.
Tenho caminhado mais depois que destruí meu carro. Aquele acidente estúpido que me deu um braço quebrado e um susto maior do que as conseqüências.
Dia desses peguei o metrô para a avenida Paulista e comprei alguns CDs de música irlandesa, evitando com pouco sucesso aqueles artistas irritantes que você gosta; mas eles estão sempre expostos entre os mais vendidos e meus olhos são mal treinados para abstrair essas intervenções de marketing. E depois desci a Consolação a pé e entrei naquele bar no centro que você odeia. Aqui as pessoas sabem meu nome, o dono me chama de são-paulino porque sabe que não gosto de futebol e acho que vou passar a noite nesse buraco. Sei que você não vai estar sozinha.
Tudo me parece meio despropositado, mas minhas caminhadas agora me servem melhor do que estar preso no trânsito para pensar em você e em tudo aquilo que podia ter acontecido.
Na verdade te escrevi uma carta e rasguei, e depois escrevi outra carta e ela está ao lado do computador para ser digitada e vai continuar ali até que a faxineira pense que é lixo, tão terrível a minha letra e a folha de papel amassada. Vou passar noites assistindo a algum canal de esportes ou pesquisando na internet sobre instrumentos do folk irlandês, e você sabe muito bem onde me encontrar, se quiser.
Em caminhadas para a padaria às sete da manhã vou pensar em abolir a palavra amor de meu vocabulário para não te assustar e quem sabe mostrar que posso ser um pouco como esses homens com quem você sai e por quem você me trocou. Mostrar que eu também posso ser superficial e conversar sobre o Jornal Nacional, o tempo ou os melhores bares da Vila Madalena. Vou pensar em deixar de uma vez o carro no conserto e mandar trocar a porta, o pára-choque e os vidros. Para então te esperar na saída do trabalho e te ver saindo com algum almofadinha de gravata e topete e uma cara cínica.
Depois em casa aumento o volume da música irlandesa e o gato parece aprovar o ritmo, deitado ao lado de uma das caixas de som. Sei muito bem o que você diria, que só escuto essas coisas porque são estranhas e o que acontece ao meu redor nunca me é o suficiente.
E fico pensando se ainda lembra meu nome.
Acho que essas caminhadas me fazem mal, e estou sem dinheiro para arrumar o carro, gastando com imbecilidades como música irlandesa, cerveja e livros que não leio. De certa forma sei que acabou, esse amor que nunca existiu porque você tinha medo de palavras. Acabou, como o pára-choque do carro, e talvez seja minha única saída cuidar do que ainda tem conserto e pode ser substituído, e parar de vez com essas caminhadas estúpidas que só me servem para gastar sola do sapato e pensar em você e em tudo aquilo que não aconteceu.
Publicado por apostos em 05:33 AM | Comments (5)
março 06, 2006
Convidado da Aposta #6: Nelson Moraes
Convidado: Nelson Moraes
Blog: Ao Mirante, Nelson!
Aposta #6: Fantasia; carnaval, sexo e mentiras.
Vá ao set de produção de um filme hardcore e entreviste a famosa atriz que faz a dominatrix (vestida a rigor, claro: lingerie de couro preto, sapato bico fino, chicote com prego na ponta e chuquinha da Xuxa), perguntando qual a fantasia preferida dela. Não se surpreenda ao ouvir que é amarrar o marido na cama com tira de pano de prato bordado em ponto-de-cruz e vestida com um camisolão de tia quituteira do interior de Minas. O marido, não por acaso o galã do filme, confirmará, entusiasmado, limpando o suor depois de protagonizar a cena principal: “E eu com pijamão azul listrado de funcionário aposentado da RFFSA!”. Aposto minha coleção de catecismos zéfiros nisso: fantasia não é necessariamente assumir entre quatro paredes uma persona luxuriante que faça aflorar nossos mais lascivos instintos. Fantasia é pensar: “Ei, isso minha mãe nunca imaginou que eu fizesse”. Ponto.
Tanto que quando aquele vienense pernicioso inventou o slogan “Complexo de Édipo: passado de pai para filho há mais de 2.500 anos!”, o que ele quis dizer é que a idéia de dar cabo do velho consiste numa recorrente fantasia masculina justamente porque nossa mãe jamais imaginará que o façamos. Se nossa mãe se chamar Clitemnestra, por exemplo, ela mesma irá cuidar disso.
Imagine uma tarde quente em que o Austregésilo de Athayde, tomando chá com a Rachel de Queiroz na ABL, ouvisse dela – entre batidinhas das xícaras nos pires por conta do treme-treme das mãos – um sussurro de volúpia outonal em meio ao suador da ocasião: “Meu nêgo, danem-se as convenções: vamos realizar, aqui e agora, sua maior fantasia”. Eles correriam (na medida do possível) para trás do biombo no vestíbulo, ele abriria o fardão, tomaria fôlego e começaria a recitar, lânguido, uma antologia de Bilac. Ante o pasmo dela, ele, catártico, desabafaria: “Quando mamãe iria pensar que eu um dia enveredasse pelo Parnasianismo?”
Retire a figura materna e você privará a fantasia de qualquer fundamento temático. Os deuses nascidos da confluência de elementos naturais e arquetípicos nunca cultivaram fantasias – e não porque estivessem ocupados demais cuidando dos destinos do mundo. Era pela ausência carnal de uma figura materna, que implicasse com o horário deles chegarem em casa e com deixarem a verdura no prato. Eu podia até justificar que Adão e Eva também nunca tiveram muita imaginação para fantasias de casal por conta da inexistência do contraponto materno, mas, pensando bem, um casal que já vivia pelado, com folhas de parreira na genitália, batendo papo com cobra, armando sacanagem com maçã para no final se deparar com espada de fogo – ia precisar de fantasia para quê?
Voltando à psicanálise: eles inventaram isso da figura materna ser o primeiro objeto de nossas fantasias eróticas porque mãe só tem uma. Se fossem várias estaríamos perdidos. Seríamos desde bebês, ao invés de uma emulação de Édipo, uma mistura de Casanovas com Hannibal Lecters, comendo de modo figurativo as inúmeras figuras femininas e fazendo o mesmo – literalmente – com os diversos referenciais paternos. Quanto à parte Casanova por mim tudo bem, mas isso de parecer com o Anthony Hopkins, não sei não. Certo, vá lá, tem o Chianti.
Em suma, falar demais em mãe pode parecer coisa de veado, mas é a pura verdade. Quem tem mãe acaba fantasiando, ponto. E quem tem avó e mora com ela acaba se fantasiando de mãe – incluindo a peruca, o vestido e o salto alto. Não sei se nessa ordem.
Publicado por marcioguilherme em 01:06 AM | Comments (4)
janeiro 26, 2006
Convidado da Aposta #5: John dos Santos
Convidado: John dos Santos
Blog: Mero Cristianismo
Aposta #5: Repetição, uma vez só.
Eu tinha dirigido o dia inteiro, e a noite já estava tarde quando comecei a pescar no volante, dormindo por um ou dois segundos e acordando abrubtamente com as sacudidas de meu carro velho. Você perde a noção do tempo quando assim. Minutos parecem horas, e então você fecha os olhos, involuntariamente, e de repente você percebe que acabou de acordar, que estava inconsciente, e que o carro está quase saindo da estrada.
Acordado! E meus olhos estão abertos, levanto as sombrancelhas tentando manter meus olhos bem abertos, e fico mais calmo, estou acordado agora, estou bem. Tudo está bem. Só mais algumas horas. Tudo bem. Estou acordado.. E cinco segundos depois acordo de novo, e vejo que mudei de pistas, e que o carro parece estar indo rápido demais. Acorda! E estou acordado, e aumento o volume do rádio, e penso: preciso parar e tomar um café. E sem saber meus olhos estão fechados de novo.
Quando acordo o carro está fedendo, e escuro, e silencioso. O carro está silencioso, eu noto, porque ele está parado. Parado, e a frente dele dobrada contra uma árvore. Pela janela vejo mato, galhos pressionados contra os vidros, e uma escuridão que me deixa assustado como uma criança. Toco meu rosto para ver se há sangue, e sinto nada. Sem um arranhão, e o sono foi embora. Saio do carro, examino o carro, e penso que enquanto eu dormia o carro desceu da estrada, caiu por uma pequena colina, e bateu contra uma árvore. Mas as árvores estão em todo canto, árvores e arbustos cobrindo todo o espaço densamente, em todas as direções.. Eu não conseguiria dirigir uma bicicleta por entre o espaço livre - como é que o carro acabou aqui? Como é que eu acabei aqui?
Desespero. Tranco o carro (pode me chamar de paranóico) e saio a procura de um caminho, de uma luz, qualquer coisa. Não demora muito até que eu mude de idéia e decida voltar pro carro, mas voltando atrás não consigo mais encontra-lo. Isso parece um pesadelo, e me pergunto se não estou ainda no carro, dormindo no volante. Continuo vagando em círculos, tentando encontrar meu carro, mas só vejo árvores, e começo a notar sons perturbadores- sons de mato, de animais, de sussurros de vento. Desespero. Você perde a noção do tempo quando assim. Começo a correr, tentando chegar a algum lugar, mas nada. Por horas eu ando, tentando manter uma linha reta, tentando chegar até onde eu imagino que esteja a estrada quando, de repente, vejo uma luz. Um lume não muito distante, chegando a minha direção.
”Aqui! Ei! Aqui!” gritei. “Me ajuda!”
A figura se aproxima mais um pouco, e vejo que é um homem. Ele segura o lume perto do rosto, e quando chega a uns vinte metros de mim ouço ele chamar:
“Hou! Hola! Estou aqui, estou aqui.”
Um homem pesado, de jaqueta preta e óculos tortos. Me aproximo mais e ofereço minha mão, mas vejo que sua outra mão também está ocupada. Um mapa?
“Graças a Deus você veio, por um momento eu pensei que estava morto.”
“Ha ha. Engraçado. Agora venha comigo.”
Ele confere seu mapa, e parte bruscamente para a esquerda, andando mais rapidamente do que eu iria se estivesse carregando um lampião. Andamos por um longo tempo, encontrando nosso caminho por entre galhos e arbustos. Direita, esquerda, voltando um pouco, parando para checar o mapa, de novo e de novo e de novo, até que -
“Chegamos.”
“Chegamos onde?” E sinto medo - quem é esse homem? Por que eu o segui até aqui?
“Chegamos,” diz ele, ajeitando seus óculos, “a entrada.”
Chego ao seu lado e vejo um buraco no chão escuro. Sinto o estranho jogar seu braço esquerdo sobre meu ombro, e sua voz dizendo baixo:
“Você primeiro.”
E ele me empurra buraco abaixo. Escuridão. Caio, mas não sinto vertigem, apenas medo. Você perde a noção do tempo quando assim. Minutos parecem horas, e então -
Quando acordo estou num chão carpetado. Levanto e vejo que estou no que parece ser o lobby de um hotel muito vagabundo. Algumas poltronas, todas ocupadas, seus ocupantes todos lendo jornais idênticos. Vejo uma mesa com algumas cópias - The New York Times de... 23 de Novembro, 1963. O homem está encostado contra uma parede, conversando com um senhor barbudo. Ele vê que estou acordado e se dirige a mim.
“Bem vindo ao Limbo, o primeiro círculo do inferno.”
“Hã?”
“O primeiro círculo do inferno. O destino eterno dos pagãos que nunca ouviram o evangelho. Você nunca leu a Divina Comédia não?”
“Hã?!”
“Hum. Muito bem. Eu pediria para você se sentar, mas a última poltrona foi tomada uns setecentos anos atrás. Você está no inferno. Sim, literalmente, no inferno. O castigo eterno, Hades, Hellheim, Nastrond, o mundo das sombras. Você sabe. E eu sou seu guia.”
“Mas por quê? O que eu fiz?! Não posso voltar?”
“Você quer uma lista completa? Mas nah, não se preocupe. Você ainda verá seu carro novamente. Eu já te perguntei: você já leu a Divina Comédia? Do Dante Alighieri?”
“Alguns pedaços, para uma aula de literatura. Eu vou... visitar o inferno?”
“Não vai. Está visitando o inferno. Mas então, desde que Dante escreveu a Comédia, quase todo visitante pedia para ser guiado pelo Virgílio. Como você pode imaginar, isso cansou o pobre homem bem rápido, e ele preferiu ir beber da fonte do esquecimento do que guiar mais uma alma pelo inferno. Então a Direção viu que essa era a punição perfeita para os poetas - e posteriormente, os bardos, os dramaturgos, os novelistas, e finalmente todos os que se ocupavam com palavras. Com o surgimento da internet, essa categoria foi ampliada mais ainda. Eu fui um dos primeiros blogueiros danados a passar toda a eternidade levando almas por passeios através do inferno.”
“Blogueiro?”
“Era uma moda que durou alguns anos. Não é do seu tempo. Mas então: este é o primeiro círculo do inferno. Todas as almas que foram danadas apenas por falta de escolha estão aqui, jogados em sofás duros ou no chão, lendo o mesmo jornal de novo e de novo e de novo.”
“Então aqui tem milhões de cópias do New York Times de 23 de Novembro de 1963?”
“Bilhões. E se você acha ruim passar o resto da eternidade lendo sobre a morte do Kennedy, imagine a situação das almas que não sabem inglês. Mas vamos, temos mais para ver. Você está pronto?”
“Não. Espera. Eu li esse pedaço, e não era assim que as almas dos pagãos não evangelizados sofriam. Eles estavam em tédio, sim, mas não li nada sobre jornais.”
“Você não espera ver o mesmo inferno que Dante, espera? Ora vamos, bilhões, trilhões de almas vindo de todos os cantos, e você acha que o inferno não se ampliou? Não ficou mais compartimentado, mais complexo? O inferno que Dante visitou está longe demais, não chegariamos a ele se viajassemos por bilhões de anos. Esse é o mesmo inferno, e ainda assim é outro inferno. Entende?”
“Não.”
“Wonderful! Rápido, por aqui.”
E ele me arrasta por uma porta, e estamos num... quarto de motel. Na cama, um casal se esfrega letargicamente sobre lençóis bagunçados enquanto um filme pornô passa na pequena televisão do quarto.
“A direção decidiu que seria interessante se ao invés dos adúlteros e fornicadores serem privados se sexo, eles fossem feitos transar por toda a eternidade. Eles acertaram na mosca - o prazer some depois de um ou dois dias, e depois disso a agonia é ainda maior do que quando eles estavam presos na tempestade. Mas vamos, eles já estão começando a feder.”
“Argh. Odeio quando isso acontece.”
Estamos num pântano situado num vale, montanhas imensuráveis cercando um rio lodoso em cujas margens estamos pisando. Na distância vejo um homem empurrar uma imensa pedra redonda montanha acima.
“Eles fugiram de novo. Maldição.”
“Quem fugiu?”
“Os irados, os glutões, e os gananciosos. Só o Sísifo ficou.”
“É... é possível fugir do inferno?”
“Tecnicamente, sim. Mas eles não sairam do inferno, foram para um nível mais profundo. Para o bosque dos suicidas. Vamos, vamos. Não tem nada pra ver por aqui - aliás, tem uma coisa.”
Com isso ele pega uma vara do chão e, entrando no rio, cutuca a água por alguns momentos até que se ouve um Ai! afogado.
“Bem, os preguiçosos ainda estão aqui. Agora vamos.”
Uma porta aparece contra uma inclinação da montanha de Sísifo, e nela entramos, passando por um corredor escuro e comprido, com portas em intervalos regulares. Meu guia abre uma das portas e, parado na porta, me chama silenciosamente para ver o que lá dentro se passa. Para minha surpresa, é uma sala de aula bem iluminada, com uma professora gordinha (e um pouco bigoduda) lecionando monotonamente. Na lousa, uma série de anotações miúdas, entitulada: Teoria Psico-Social Néo-Dialética no Objetivismo Textual de Ney Matogrosso: Uma Introdução. Nas carteiras, dezenas de almas anotando o que podem enquanto a professora leciona sem pausa.
“O castigo dos hereges.” Diz meu guia. “Vamos. Por aqui, a entrada de Dis está próxima.”
Dis, eu percebo, tem uma semelhança perturbadora com qualquer grande cidade, seja São Paulo, seja Nova Iorque. Chegamos a um parque cheio de pequenas banquinhas de camelô.
“O bosque dos suicidas,” diz meu guia, visivelmente irritado, “ou o que sobrou dele”.
“Mas só tem umas vinte árvores por aqui”.
“Havia mais, até que eles,” com isso o blogueiro aponta para os camelôs, “chegaram por aqui.”
Os camelôs oferecem diversas mercadorias (a maioria delas feitas de madeira), mas os únicos que parecem atrair clientes são as barraquinhas de churrasco.
“Isso sempre acontece. Os gananciosos convencem os irados e os violentos a se juntarem a eles para derrubarem a floresta dos suicidas e abrirem um negócio. E os gulosos, assim que descobrem, fogem pra cá por causa do churrasco. Lá se vão o bosque e os cães infernais. Diga, se passar a eternidade como uma árvore parece ruim, diga o que você pensa de passar a eternidade como uma centena de espetinhos de churrasco descartados?”
“Deus me livre.”
“Ha ha. Não aqui. Mas então, aceita um churrasquinho?”
“Não obrigado.”
“Então vamos. Estamos quase chegando ao fundo.”
“Bem vindo,” diz meu guia enquanto saímos do elevador para a passarela, “a Malebolge. Esse lugar foi, por séculos, o lar dos sedutores, bajuladores, simonistas, bruxos, falsos profetas, políticos corruptos, hipócritas, ladrões, falsos conselheiros, espalhadores de discórdia, mentirosos, falsificadores, e todo outro tipo de praticante de fraude. Está vendo os dez degraus? É como todo um inferno condensado dentro de um só círculo”.
“E… porque não tem mais ninguem nele?”
“A direção do inferno decidiu que eles seriam melhor aproveitados se reincarnados.”
“Espera. Existe reincarnação?”
“Porque não haveria de existir?”
“Mas então… porque existem tantas pessoas aqui embaixo? Porque eles não reencarnam ao invés de acabar aqui? Porque não vivem vidas melhores, e vão para o céu? Qualquer um pode reincarnar?”
“Sim. Qualquer um pode, e muitos o fazem antes de acabarem aqui ou no paraíso. Mas o que faz você pensar, inocente, que os que reincarnam vivem mais justamente? Entenda isto: pessoas não mudam. O que você é, você será por toda a eternidade. Sua vida - sua primeira vida - é... é como uma partitura que você escreve. Cada escolha, cada oportunidade, cada pensamento e ação e palavra - tudo que você faz é uma pequena anotação, uma marca, um sinal, uma nota. Você compõe seu ser, você alinha seu espírito, você escreve a trajetória de sua alma a cada segundo. E então toda a eternidade - seja ela no paraíso, seja ela aqui, seja ela numa segunda, ou terceira, ou milésima vida na terra - é um loop, uma repetição daquilo que você compôs. Você tem uma tentativa, uma chance de escolher uma eternidade a ser aguentada ou curtida. Os que saíram desse poço alguns séculos atrás não estão melhores do que eram em suas primeiras vidas. Continuam covardes, continuam desonestos, continuam aproveitadores. Nem as almas boas que reincarnam melhoram de condição. William Wordsworth, hoje, é uma agente de viagens coreana adepta do Reverendo Moon, mas escondida já começou a escrever seus primeiros poemas. Akhenaton é um recém-convertido das testemunha de jeová. Omar Khayyam hoje canta chorinhos enquanto afoga as mágoas. As circunstâncias mudam, mas as almas nunca. Todos são eternos, todos duram para sempre, todos fazem de novo e de novo o que decidiram fazer quando a escolha era deles. Toda coisa viva, como já disse um guia do outro lado, repete tudo, quer fazer tudo de novo e de novo. E quando a vida é eterna - bem, então você tem muito tempo para se repetir. Se as almas fraudulentas estão na terra ao invés do oitavo círculo é uma questão de practicidade: eles são bem mais úteis para o inferno lá do que aqui. Mas para eles, a diferença é nenhuma. A alma deles já é infernal - já foi antes de pisarem os pés aqui. Suas escolhas já fazem de suas almas um inferno em si. É por isso que estamos aqui.
“É por isso que você está aqui?”
“Por isso. E também por ser preguiçoso. Por ser orgulhoso. E talvez por fazer brincadeira com coisas sérias demais.”
E com isso entramos de volta ao elevador. Rumo ao nono círculo.
“Os quatro anéis do Cocytus,” diz meu guia, “já foram cheios de traidores, mas os que não foram reincarnados para melhor aproveitamento de recursos lá em cima foram...”
A porta do elevador se abre, e meus olhos caem sobre Satanás. Um anjo caído com três cabeças e seis asas, todas batendo com toda a força. Vejo que ele está preso, cintura abaixo, num lago congelado. As três cabeças de Lúcifer estão erguidas, cada uma com um sorriso presunçoso, e as três falando alternadamente, como se declamando algum poema, uma cabeça a outra. Saímos do elevador, e ouvi a cabeça da esquerda dizer:
“Quis mudar tudo, mudei tudo, agorapóstudo, extudo, mudo.”
Ao que a cabeça da direita respondeu:
“O topázio canibaliza seus amarelos, lente no olho tórrido da luz, forno solar”
Nisto a cabeça do meio se ergueu e disse:
“bebacocacola, babecola, bebacoca, babecolacaco, caco, cola, c l o a c a.”
Então as três cabeças se juntaram e grunhiram:
“Catiti catiti! Imara notiá!Notiá imara, ipeju!”
“Estou com medo,” digo ao meu guia. “Quando é que saímos daqui e vamos para o purgatório e paraíso?”
“Purgatório e paraíso? Não, não. Você não veio aqui para ver o purgatório ou o paraíso. Tudo isso, todo esse tour, esse passeio, foi para te ensinar o princípio sobre o qual o inferno - sobre o qual toda vida imortal - está baseada. Repetição. Eternidade é isso: é a constante repetição de um padrão estabelecido na terra. Foi pra isso que antes de mais nada você foi levado por todo o inferno.”
“E agora, nada?”
“Não. Agora, uma eternidade por aqui. O que você esperava?”
“Não! Espera, você disse que eu voltaria!”
“Não. Eu disse que você veria seu carro novamente. Lembre-se, a essência de todo castigo é a repetição.”
Quando acordo o carro está fedendo, e escuro, e silencioso. O carro está silencioso, eu noto, porque ele está parado. Parado, e a frente dele dobrada contra uma árvore. Pela janela vejo mato, galhos pressionados contra os vidros, e uma escuridão que me deixa assustado como uma criança.
Publicado por marcioguilherme em 12:06 AM | Comments (1)
janeiro 12, 2006
Convidado da Aposta #3: Cesar Miranda
Convidado: Cesar Miranda
Blog: Pró Tensão
Aposta #3: Luz, câmera, caramanchão.
A arte existe para entreter. Divertir as gentes. Arte que não é divertida não merece existir. Nada que não seja divertido, na verdade, pois a chatice é um pecado grave. A sofisticação não está na arte, e sim no consumidor da arte. O artista verdadeiramente independente faz a arte sem pensar no consumidor e, quando não há público algum para se divertir com aquela obra, com alguma sorte, o tempo cuida de esperar que o público chegue ao ponto em que possa apreciar adequadamente a pobre arte que nasceu estranha ao próprio tempo. Mas voltemos à diversão. A arte apenas arte, obra do artista independente, demanda, ou até talvez engendre, um público suficientemente sofisticado que se divirta com ela. Elomar costuma dizer "eu não faço música pro povo, se o povo quiser que suba até minha arte". Pena, para o povo, que prefere andar pra trás no que diz respeito à sofisticação de suas diversões. Uma coisa é o conteúdo da obra de arte, outra coisa é a forma com que ela chega ao consumidor. Imaginando um público igual e uniformemente sofisticado, o que se poderia chamar de mais ou menos divertido? No que diz respeito à forma da arte, certamente é mais divertida aquela obra que chegar ao público da forma mais confortável possível para o público, pois o conforto é preferível ao esforço (eu poderia aqui escrever três páginas na forma de diálogos para demonstrar maieuticamente essa afirmação da superioridade do conforto sobre o esforço, mas não o farei, estou com preguiça). Sigamos. Sendo o conforto a coisa mais confortável (sic) que existe, não há dúvida de que as artes cênicas são superiores a todas as outras artes na função de contar uma história. Aquele papo furado de que o livro é superior e enriquecedor porque exige mais da imaginação do leitor etc. Ora, ora, isto é, sim, um defeito enorme dessa coisa deficiente que é o livro. O livro às vezes exige leitores gênios para que se entenda a história mais simples do mundo e, às vezes, não tem imaginação que dê jeito; isto sem falar que muitas pessoas (eu?!) são analfabetos funcionais que lêem, mas não entendem aquela gororoba toda que o autor jura que é uma excelente forma de contar história. A defesa do livro (em relação a ir ao cinema, por exemplo) é tão convincente quanto tentar defender a leitura da partitura confrontada com ir a uma sala de concerto ver a Filarmônica de Berlim. Mas voltemos à aventura. Passada para a arte cênica, a história fica mais mole para o espectador justamente porque não exige imaginação alguma dele. De todas as artes cênicas, o cinema é a melhor, superior porque, além de não exigir imaginação, você ainda pode viver a história da tela junto com seu amor e um saco de pipocas. "Viver a história" é o que acontece quando se vai ao cinema, você não pode ir ao cinema para fazer outra coisa (como pensar, por exemplo), senão você perde o filme. Cinema para pensar é como almoço para estudar. O filme lhe puxa pelo braço, leva você junto ao que é contado e só larga seu braço com o "the end". Todo bom livro deveria ser filmado, obrigatoriamente, de preferência pelo Peter Jackson, com atores falando em inglês da Inglaterra. Economizaríamos muito tempo, pois qualquer filme de duas horas em livro corresponde a, no mínimo, duas semanas de leitura. Deixaríamos os livros para os tarados por regências verbais, figuras de linguagem e teorias filosóficas, coisas chatas que nenhuma relação têm com a verdadeira função da arte, que é, confortavelmente, nos tirar deste mundo cruel por algum tempo. Por acaso, essa também é a função do amor.
Publicado por marcioguilherme em 11:07 PM | Comments (4)

